Iniciativa comunitária já atendeu mais de 60 pessoas e busca ampliar o acesso ao tratamento por meio de consultas, acompanhamento e parcerias
Um projeto comunitário desenvolvido no Morro da Cruz, em Porto Alegre (RS), oferece acesso à Cannabis medicinal para mulheres com fibromialgia e outras condições associadas à dor crônica.
A iniciativa reúne uma ONG, profissionais de saúde e a empresa Revivid Brasil para viabilizar consultas, prescrição e distribuição de óleo de Cannabis, com o objetivo de alcançar pessoas que enfrentam dificuldades financeiras para iniciar ou manter o tratamento.
O trabalho começou com um grupo de mulheres da comunidade e, segundo a responsável pelo projeto, já ultrapassou a marca de 60 pacientes atendidos.
A proposta é ampliar o acesso à terapia canabinoide de forma acompanhada, com documentação e orientação profissional, enquanto busca parcerias que permitam levar a iniciativa a mais pessoas.
Dor crônica e o desafio de trabalhar com as próprias mãos
A origem do projeto está ligada à realidade de mulheres que vivem na comunidade e dependem do próprio corpo para garantir a renda.
Muitas trabalham com artesanato, costura e tear, atividades que exigem esforço físico e podem se tornar ainda mais difíceis diante de quadros de dor persistente.
A aproximação entre a coordenadora da ONG, Tânia, e a responsável pelo projeto, Liane Pereira, aconteceu em uma reunião da Frente Parlamentar Canábica, na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre.
Na ocasião, Tânia relatou a situação de mulheres que participavam das ações de geração de renda da organização e conviviam com dores.
A partir desse encontro, surgiu a proposta de levar a Cannabis medicinal às moradoras. Segundo Liane, a dificuldade de acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo a falta de consultas e médicos, foi um dos fatores que impulsionaram a iniciativa.
O primeiro grupo, formado por 12 mulheres, deu início ao trabalho que, em outubro, completa dois anos, conforme o relato da responsável.
“Por muitas Caroles”
A atuação de Liane na iniciativa também está diretamente ligada à história de sua filha, Caroline.
Diagnosticada ainda no primeiro mês de vida com uma condição neurológica grave, Carol passou anos enfrentando crises convulsivas e diferentes tratamentos com anticonvulsivantes.
Quando iniciou o tratamento com Cannabis medicinal, em 2016, já utilizava cadeira de rodas e sonda gástrica e tinha indicação para uma traqueostomia.
Segundo Liane, a Cannabis trouxe mudanças significativas para a rotina da filha, com redução das crises e melhora da qualidade de vida. A experiência fez com que a mãe passasse a defender não apenas o tratamento de Carol, mas o acesso de outras pessoas à terapia.
“Eu sempre digo que a minha luta hoje não é pela Carol, mas por muitas Caroles. Isso não é só uma fala, tem que ser uma ação”, afirma Liane.
É essa trajetória que, anos depois, também está por trás de seu envolvimento com as mulheres do Morro da Cruz.
Para ela, ampliar o acesso à Cannabis medicinal significa transformar uma experiência que teve impacto na vida da própria filha em uma possibilidade de cuidado para outras pessoas que convivem com dor e enfrentam dificuldades para acessar o tratamento.

Liane e sua filha Carol
Como funciona o acesso à Cannabis medicinal
O projeto é realizado em uma sala disponibilizada pela ONG dentro da própria comunidade, no Morro da Cruz. As mulheres interessadas se inscrevem na organização, que estrutura os grupos e organiza as consultas médicas.
De acordo com Liane, o processo envolve:
- Inscrição das pacientes na ONG;
- Consulta médica e avaliação clínica;
- Preenchimento de anamnese e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE);
- Prescrição e organização da documentação necessária;
- Solicitação da autorização da Anvisa, quando aplicável;
- Entrega do óleo de Cannabis;
- Acompanhamento das pacientes após o início do tratamento.
Os primeiros grupos foram acompanhados por ela, enquanto os grupos mais recentes passaram a contar com o médico Martin Almeida, do Paraná, que realiza consultas a preço social. A ONG custeia os atendimentos, segundo o depoimento.
A parceria com a Revivid Brasil permite a aquisição do óleo e a entrega do primeiro frasco gratuitamente às pacientes. As mulheres que seguem no tratamento podem ter acesso a descontos e frete gratuito, conforme as condições relatadas por Liane.
No primeiro grupo, formado pelas moradoras do Morro da Cruz, a distribuição gratuita continua sendo realizada pela ONG.
Acompanhamento vai além da entrega do óleo
Para Liane, o trabalho não se resume à consulta e à entrega do medicamento. O acompanhamento das pacientes é uma das principais etapas da iniciativa.
As mulheres recebem orientações sobre o sistema endocanabinoide, os receptores presentes no organismo e a ação dos compostos da Cannabis. A ativista também mantém contato com as pacientes por telefone e WhatsApp, além de receber relatórios sobre a evolução do tratamento.
“Não é somente uma consulta e entrega do óleo. Eu dou um acompanhamento diário para essas mulheres”, relata.
Os registros enviados pelas pacientes são utilizados para observar a utilização do medicamento, os horários de administração e possíveis diferenças em relação a outros tratamentos.
Liane também destaca a importância de avaliar possíveis interações medicamentosas com o médico responsável.
Ademais, a ONG encaminha pacientes para outras especialidades, como ortopedia e psiquiatria, com a proposta de formar uma rede de cuidado multidisciplinar.
Relatos de melhora da dor e qualidade de vida
Segundo Liane, algumas pacientes relatam melhora importante da dor após o início do tratamento com Cannabis medicinal. Há também relatos de mudanças na rotina e na qualidade de vida.
“Temos pacientes que estão nos dizendo que a vida mudou, que hoje têm uma ótima qualidade de vida”, afirma.
A entrevistada ressalta, no entanto, que a resposta ao tratamento varia entre as pacientes. Algumas ainda estão ajustando a dose, enquanto outras interromperam o acompanhamento.
Os relatos são acompanhados por meio de relatórios e contatos individuais, mas o projeto não apresentou dados clínicos sistematizados que permitam medir os resultados ou comprovar a eficácia do tratamento para todas as participantes.

Da iniciativa comunitária à busca por políticas públicas
Com a ampliação dos grupos, o projeto já abriu inscrições para novas participantes. Liane estima que cada grupo reúna, em média, de 12 a 13 pacientes.
A proposta, segundo ela, é continuar ampliando o acesso e buscar médicos dispostos a oferecer consultas a preços sociais.
A iniciativa também pretende apresentar o trabalho à Prefeitura de Porto Alegre e ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, como exemplo de uma ação comunitária que pode alcançar pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Hoje nós trabalhamos para entregar esse projeto na Prefeitura e no Governo do Estado do Rio Grande do Sul, provando que é possível sim que chegue lá na ponta, lá no morro, aos pacientes”, afirma.
Outra possibilidade mencionada é aproximar o projeto das unidades de saúde da própria comunidade.
A ideia é buscar uma parceria com o posto de saúde do Morro da Cruz para que os profissionais conheçam o trabalho e possam acompanhar as pacientes que já utilizam Cannabis medicinal.
Para a ativista, a ampliação do acesso depende da união entre pacientes, profissionais de saúde, empresas e organizações sociais.
“A garantia do acesso tem que estar em primeiro lugar.”, afirma.
Próximos passos
O projeto segue com a formação de novos grupos e a busca por parcerias que permitam manter o tratamento das pacientes. Liane destaca que a continuidade depende de uma rede de apoio formada por médicos, organizações e empresas.
A intenção é que mais mulheres da comunidade possam ter acesso à Cannabis medicinal, com acompanhamento e orientação, sem que o custo seja uma barreira para o início do tratamento.
Inicie seu tratamento
O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).
Mais de 30 patologias podem ser tratadas com a Cannabis. Quer saber mais e dar início ao tratamento?
Entre em contato com o nosso acolhimento e marque uma consulta.
https://informacann.com.br/acolhimento-pacientes-informacann






