Pesquisa avaliou segurança do produto em testes pré-clínicos e analisou relatos de 2.123 pessoas que utilizaram o absovente revestido com canabidiol
A dor menstrual é uma das queixas ginecológicas mais comuns e, para algumas pessoas, pode ultrapassar o desconforto esperado durante a menstruação e interferir diretamente na rotina.
Com base nisso, um estudo publicado como preprint na plataforma Research Square avaliou a segurança e o potencial do canabidiol (CBD) no controle desse tipo de dor por meio de um absorvente revestido com a substância.
O trabalho reuniu duas frentes de investigação. Na primeira, os pesquisadores realizaram testes pré-clínicos para avaliar irritação vaginal, sensibilização da pele, toxicidade sistêmica, risco de síndrome do choque tóxico e outros parâmetros de segurança.
Na segunda, analisaram dados de vigilância pós-comercialização e respostas de usuárias do produto coletadas entre 2019 e 2024.
Entre as 2.123 pessoas que responderam à pesquisa e relataram utilizar os absorventes com CBD, a intensidade média da dor menstrual caiu de 6,35 antes do uso para 3,78 durante o uso, uma redução média de 2,57 pontos na escala de Mankoski.
Os pesquisadores afirmam que os resultados, somados a um ensaio clínico randomizado publicado anteriormente, reforçam o potencial do produto para o manejo da dismenorreia primária.

O que é dismenorreia?
Dismenorreia é o termo médico utilizado para descrever a dor associada à menstruação. Ela pode ser classificada como primária, quando não há uma alteração pélvica identificável que explique a dor, ou secundária, quando está relacionada a uma condição ginecológica, como endometriose, adenomiose, miomas ou doença inflamatória pélvica.
De acordo com os autores, uma revisão sistemática publicada em 2025 estimou a prevalência mundial da dismenorreia primária em aproximadamente 73% das pessoas que menstruam.
Em casos mais intensos, a dor pode limitar atividades físicas e cotidianas, além de afetar estudos, trabalho e qualidade de vida.
Atualmente, os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) estão entre os tratamentos de primeira linha para a dismenorreia primária.
Entretanto, nem todas as pessoas respondem adequadamente a essas opções ou conseguem utilizá-las devido a contraindicações e efeitos adversos.
É nesse cenário que os pesquisadores investigam novas possibilidades de controle da dor, entre elas os canabinoides.
Como o CBD foi utilizado?
O produto avaliado é um absorvente de algodão orgânico revestido com extrato de Cannabis sativa. Segundo o estudo, cada unidade contém 100 mg de extrato de cânhamo, com 30% de CBD ativo.
A proposta é utilizar o próprio absorvente como veículo para a administração vaginal do canabidiol durante a menstruação. Dessa forma, além de absorver o fluxo menstrual, o dispositivo entra em contato com a mucosa vaginal e permite a administração localizada do CBD.
Os pesquisadores destacam que a administração vaginal de canabinoides já vinha sendo investigada como uma possível estratégia para dores menstruais.
A hipótese é que a aplicação local possa contribuir para o efeito analgésico, embora ainda sejam necessários estudos para compreender exatamente quanto CBD é absorvido pela mucosa e como ele atua nesse contexto.
O que os testes de segurança encontraram?
Antes de analisar os dados de uso em condições reais, os pesquisadores avaliaram diferentes aspectos de segurança do produto.
Os testes incluíram modelos para investigar irritação, sensibilização, toxicidade sistêmica, efeitos sobre microrganismos associados à microbiota vaginal e risco relacionado à síndrome do choque tóxico.
Também foram realizados testes em animais para avaliar toxicidade sistêmica e irritação vaginal.
De maneira geral, os testes pré-clínicos não identificaram alterações importantes atribuídas ao produto.
Em um dos experimentos, porém, o extrato em solução salina foi classificado como irritante mínimo em um modelo de irritação vaginal, enquanto o extrato em óleo de gergelim foi classificado como não irritante.
Os pesquisadores consideraram, no conjunto dos testes realizados, que o produto apresentou características de biocompatibilidade compatíveis com os critérios avaliados.
O que aconteceu entre as usuárias?
A segunda parte da pesquisa utilizou dados de vigilância pós-comercialização referentes a 25.327 pessoas que compraram os absorventes com CBD entre setembro de 2019 e julho de 2025.
Nesse período, foram registradas 148 complicações ou reações clínicas, correspondendo a 0,58% dos compradores. A maioria dos eventos foi classificada como de menor gravidade.
Entre os registros estavam infecções, desconforto ou irritação vaginal, sintomas gastrointestinais, reações alérgicas, alterações menstruais e sintomas neurológicos ou sistêmicos.
No entanto, os próprios autores destacam que alguns eventos classificados como mais graves envolveram sintomas como cólicas intensas, efeitos semelhantes aos da síndrome do choque tóxico e possíveis interações medicamentosas.
E o alívio da dor?
Para avaliar a percepção das usuárias, os pesquisadores enviaram um questionário a cerca de 42 mil pessoas que haviam consentido em ser contatadas. Foram recebidas 2.465 respostas, das quais 2.123 correspondiam a pessoas que relataram utilizar o absorvente com CBD.
Entre essas participantes, a pontuação média de dor caiu de 6,35 antes do uso para 3,78 durante o uso.
O tempo relatado para o início do alívio variou. Entre as usuárias que responderam à questão, 36% disseram perceber melhora em até 30 minutos e 55,5% em até 45 minutos.
Entretanto, cerca de 23% das respostas estavam ausentes nessa pergunta, o que, segundo os próprios pesquisadores, limita a interpretação desse resultado.
A frequência de utilização também pareceu influenciar os resultados. Quase metade das usuárias ativas informou utilizar entre cinco e dez absorventes com CBD por mês.
Os autores observaram maiores reduções da dor entre aquelas que mantiveram o uso por mais tempo ao longo do ciclo, embora tenham identificado uma espécie de platô ou redução do benefício nos níveis mais elevados de utilização.
Cannabis e saúde feminina
A relação entre Cannabis e saúde feminina vem sendo investigada em diferentes frentes, especialmente quando o assunto é dor.
A literatura citada pelos pesquisadores aponta estudos anteriores sobre o uso de canabinoides para sintomas relacionados à síndrome pré-menstrual, transtorno disfórico pré-menstrual e endometriose.
Esse interesse está relacionado, entre outros fatores, à atuação do sistema endocanabinoide em mecanismos envolvidos na percepção da dor e em processos inflamatórios.
Ainda assim, a quantidade e a qualidade das evidências clínicas variam bastante entre as diferentes condições.

O que os resultados mostram?
Os dados apresentados apontam para um possível efeito analgésico do absorvente revestido com CBD no contexto da dor menstrual e trazem informações adicionais sobre a segurança do produto em testes pré-clínicos e no uso comercial.
Mas há uma diferença importante entre relato de benefício e demonstração de eficácia clínica. A maior parte dos dados de dor apresentados nesta pesquisa vem de um questionário respondido voluntariamente por usuárias do produto.
Isso significa que os resultados estão sujeitos a fatores como memória, percepção individual e viés de seleção — pessoas que tiveram experiências muito positivas ou negativas podem ter maior probabilidade de responder ao questionário.
Os próprios autores reconhecem essas limitações e afirmam que novos ensaios clínicos randomizados, com amostras maiores e dados completos, são necessários para confirmar os resultados e determinar os padrões ideais de uso.
O estudo, portanto, acrescenta dados à investigação sobre o potencial dos canabinoides para o manejo da dor menstrual, mas ainda não encerra a discussão. A confirmação da eficácia e da segurança de longo prazo dependerá de pesquisas clínicas independentes, maiores e controladas.
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