Análise reuniu sete estudos sobre o uso de Cannabis e canabinoides em adultos com a síndrome e identificou sinais de melhora dos sintomas
Uma revisão publicada na Annals of Indian Academy of Neurology avaliou as evidências disponíveis sobre o uso de Cannabis e canabinoides para a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI).
A síndrome consiste em um distúrbio neurológico caracterizado por uma necessidade difícil de controlar de movimentar as pernas, geralmente acompanhada por sensações desagradáveis. Os sintomas tendem a aparecer ou piorar durante períodos de repouso, principalmente à noite, e podem interferir no sono.
A revisão encontrou sinais de que diferentes preparações de Cannabis e canabinoides podem reduzir ou prevenir os sintomas da condição, inclusive em alguns pacientes com quadros de difícil controle. No entanto, os autores ressaltam que os dados disponíveis ainda são insuficientes para estabelecer recomendações clínicas.
O que é a síndrome das pernas inquietas?
A SPI é uma condição neurológica marcada por uma necessidade irresistível de movimentar as pernas. O impulso costuma vir acompanhado de sensações descritas como formigamento, desconforto, dor ou sensação de algo rastejando nas pernas.
Uma característica importante é a relação com o repouso: os sintomas aparecem ou se intensificam quando a pessoa permanece sentada ou deitada e costumam piorar no período noturno. O movimento das pernas pode proporcionar alívio temporário.
Além do desconforto físico, a síndrome pode comprometer o sono. Em pessoas com sintomas mais intensos, as manifestações noturnas podem dificultar o início ou a manutenção do sono e, consequentemente, afetar a qualidade de vida.

Como a revisão foi realizada
Pesquisadores do All India Institute of Medical Sciences, na Índia, realizaram uma busca em diferentes bases de dados, incluindo PubMed, Embase, Scopus, Cochrane Library, Google Scholar, ClinicalKey e ClinicalTrials.gov. A busca considerou trabalhos publicados desde o início dos registros das bases até 30 de abril de 2025, com 5.730 publicações sendo identificadas no total.
Depois da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, sete estudos foram selecionados para a revisão.
O que os estudos encontraram?
De maneira geral, os trabalhos analisados apontaram para uma possível melhora dos sintomas da SPI com o uso de Cannabis ou canabinoides.
Entre as evidências consideradas pelos autores estão relatos de pacientes com síndrome das pernas inquietas resistente a tratamentos convencionais.
Em uma série de seis casos publicada anteriormente, por exemplo, todos os pacientes relataram alívio dos sintomas após o uso de Cannabis ou CBD. Os pesquisadores da época destacaram, porém, que os resultados precisavam ser confirmados por estudos clínicos mais robustos.
Outro estudo incluído na literatura avaliou pacientes com doença renal em estágio avançado submetidos à diálise. Entre 192 participantes que responderam ao questionário, 86 apresentavam sintomas de SPI. Quinze relataram utilizar Cannabis para tentar controlar os sintomas, e nove disseram ter percebido melhora.
Entretanto, por se tratar de uma pesquisa observacional baseada em autorrelato, os resultados não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.
Ademais, a revisão também considerou uma análise exploratória anterior que avaliou o efeito do CBD em pacientes com doença de Parkinson e transtorno comportamental do sono REM. Porém, com o foco da investigação sendo sintomas da síndrome das pernas inquietas nesse grupo.
O que os resultados indicam?
Os autores consideram que os resultados reunidos apontam para um potencial terapêutico dos canabinoides, mas ainda não são suficientes para estabelecer a Cannabis como tratamento da síndrome das pernas inquietas. Uma das possíveis explicações investigadas está na atuação dos canabinoides sobre mecanismos envolvidos na transmissão e percepção de sinais neurológicos.
A revisão discute, entre outras possibilidades, a influência dos canabinoides sobre neurotransmissores e sobre mecanismos relacionados à percepção da dor.
Essa hipótese, entretanto, ainda não é suficiente para comprovar eficácia clínica. A revisão reúne estudos com desenhos muito diferentes e, portanto, seus resultados não podem ser interpretados da mesma maneira que os de um ensaio clínico controlado.
Evidências ainda são consideradas insuficientes
O principal limite apontado pelos pesquisadores é a qualidade dos estudos disponíveis.
A literatura encontrada é composta principalmente por relatos de casos, pesquisas transversais e análises post hoc. Esses desenhos podem identificar sinais de benefício e ajudar a formular hipóteses, mas apresentam limitações importantes para determinar se o efeito observado realmente foi causado pelo tratamento.
Além disso, a ausência de ensaios clínicos randomizados e controlados de alta qualidade impede estabelecer com segurança aspectos como eficácia, dose adequada, duração do tratamento, perfil de segurança e quais pacientes poderiam se beneficiar mais.
Por isso, embora a revisão identifique resultados promissores, os autores concluem que as evidências atuais não sustentam recomendações clínicas para o uso de Cannabis ou canabinoides contra a síndrome das pernas inquietas.
Cannabis como possível terapia complementar
A conclusão da revisão não é de que a Cannabis não funciona para a síndrome das pernas inquietas, mas de que ainda não existem evidências clínicas suficientemente robustas para afirmar sua eficácia.
Os pesquisadores apontam que os canabinoides podem representar uma alternativa a ser investigada, especialmente diante de casos que não respondem adequadamente aos tratamentos disponíveis. A hipótese, porém, precisa ser testada em estudos maiores e metodologicamente mais rigorosos antes que seja possível estabelecer seu papel no tratamento da condição.
Nesse sentido, a pesquisa contribui principalmente para mapear o conhecimento existente e indicar uma área que ainda necessita de investigação clínica.
Os próprios autores destacam a necessidade de ensaios clínicos randomizados e de melhor qualidade para determinar se os resultados observados em estudos preliminares se confirmam em uma população maior.

Um novo estudo reforça o interesse no tema
Depois do período considerado pela revisão, um estudo exploratório publicado em 2026 avaliou uma combinação de 2,7 mg de THC e 2,5 mg de CBD em 18 pessoas com síndrome das pernas inquietas, 16 delas com esclerose múltipla.
Após um e três meses de tratamento, houve redução significativa na pontuação da International Restless Legs Syndrome Rating Scale. Também foi observada redução do tempo acordado após o início do sono.
Como o estudo foi aberto, prospectivo e teve uma amostra pequena, seus resultados também precisam ser interpretados com cautela.
Esse trabalho não foi incluído na revisão publicada na Annals of Indian Academy of Neurology, pois os pesquisadores encerraram sua busca em abril de 2025. Ele, portanto, representa uma evidência posterior que acrescenta ao cenário de pesquisa, mas ainda não resolve a principal lacuna apontada pela revisão: a falta de estudos randomizados e controlados com amostras maiores.
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