Ensaio clínico randomizado comparou canabidiol com codeína associada ao paracetamol em 35 pacientes submetidos à cirurgia refrativa

 

O canabidiol (CBD) apresentou controle da dor semelhante ao de uma combinação de codeína e paracetamol após uma cirurgia refrativa a laser.

O resultado vem de um ensaio clínico realizado por pesquisadores da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, que comparou as duas abordagens em 35 adultos submetidos à ceratectomia fotorrefrativa (PRK).

Publicado no Journal of Cataract & Refractive Surgery, o estudo avaliou não apenas a intensidade da dor, mas também a recuperação visual, sintomas relatados pelos pacientes e indicadores de qualidade de vida.

Segundo os pesquisadores, o CBD apresentou controle da dor considerado não inferior ao tratamento com opioide, com resultados semelhantes nos demais parâmetros avaliados.

Como o estudo foi realizado

O trabalho foi desenvolvido como um ensaio clínico prospectivo, randomizado, cruzado e autocontrolado. Nele, participaram 35 adultos submetidos a cirurgias de PRK nos dois olhos, em procedimentos realizados de forma sequencial.

A cada cirurgia, os participantes receberam um dos dois tratamentos avaliados. Para um dos olhos, utilizaram CBD oral em uma dose de 50 mg, duas vezes ao dia. Para o outro, receberam uma combinação de 30 mg de codeína e 300 mg de paracetamol a cada quatro horas.

A ordem dos tratamentos foi definida de maneira aleatória, de modo que parte dos pacientes recebeu CBD primeiro e outra parte começou pelo medicamento à base de codeína.

Esse desenho permitiu que os pesquisadores comparassem as respostas dos mesmos pacientes às duas estratégias de controle da dor, reduzindo a influência das diferenças individuais entre participantes.

Os principais desfechos analisados foram as avaliações de dor e a acuidade visual sem correção três meses após a cirurgia.

O estudo também acompanhou sintomas registrados pelos próprios pacientes e instrumentos de avaliação de qualidade de vida relacionados à cirurgia refrativa, incluindo PROWL, QIRC e OSDI.

 

Dor apresentou resposta semelhante

Em ambos os tratamentos, as maiores pontuações de dor foram registradas no segundo dia após a cirurgia.

No entanto, quando os pesquisadores compararam as duas intervenções, não encontraram diferença estatisticamente significativa nem na dor média nem na intensidade máxima relatada pelos pacientes.

A comparação apresentou p = 0,538, resultado que não indica diferença estatisticamente significativa entre CBD e codeína associada ao paracetamol.

Na prática, os dados mostram que, dentro das condições avaliadas pelo estudo, o CBD proporcionou um controle da dor semelhante ao tratamento convencional com opioide. Por isso, os pesquisadores classificaram o CBD como não inferior à combinação de codeína e paracetamol para o controle da dor após a PRK.

Recuperação visual não foi afetada

A visão também foi acompanhada ao longo do período de recuperação. Três meses após os procedimentos, a acuidade visual sem correção havia melhorado de maneira significativa.

Apesar da melhora esperada após a cirurgia, os pesquisadores não encontraram diferença relacionada ao tratamento utilizado.

A comparação entre CBD e codeína-paracetamol apresentou p = 0,928, indicando que nenhum dos dois tratamentos produziu vantagem sobre o outro nesse desfecho. Isso significa que, no período analisado, o uso do CBD para controle da dor não esteve associado a uma pior recuperação visual em comparação com o tratamento com codeína e paracetamol.

Onde houve divergência

Um dos poucos resultados que diferiu entre os tratamentos apareceu na avaliação denominada pelos pesquisadores como sensorium.

O termo se refere ao estado de percepção e consciência sensorial do paciente — ou seja, à forma como a pessoa estava percebendo e experimentando o próprio estado naquele momento.
A diferença, porém, não apareceu de maneira igual nas duas cirurgias.

Quando o paciente recebeu CBD na primeira cirurgia, a pontuação de sensorium foi significativamente maior em comparação com a situação em que recebeu o tratamento com codeína e paracetamol.

Já, quando o CBD foi administrado na segunda cirurgia, depois de o paciente já ter passado pela primeira experiência cirúrgica, essa diferença não foi observada.

Para os pesquisadores, esse padrão sugere um possível efeito relacionado à primeira exposição ao CBD, e não necessariamente uma alteração que se mantenha nas exposições seguintes. O estudo descreve essas mudanças como leves e aponta que elas podem ocorrer principalmente em pacientes que ainda não haviam passado por uma experiência cirúrgica anterior.

Qualidade de vida e sintomas

Além da dor e da visão, os pesquisadores utilizaram questionários para acompanhar a recuperação dos pacientes e possíveis impactos da cirurgia no cotidiano.

Foram avaliados instrumentos como o PROWL, desenvolvido para mensurar resultados relatados por pacientes após cirurgia refrativa; o QIRC, voltado ao impacto da correção refrativa na qualidade de vida; e o OSDI, utilizado para avaliar sintomas relacionados à superfície ocular.

De maneira geral, os resultados desses instrumentos foram equivalentes entre os dois tratamentos. O mesmo ocorreu com os demais sintomas acompanhados durante o período pós-operatório.

Assim, a diferença observada na avaliação de sensorium não se traduziu em uma diferença geral nos resultados de recuperação, qualidade de vida ou sintomas relatados pelos participantes.

O que os resultados indicam?

Os pesquisadores concluíram que o CBD oral com baixo teor de THC apresentou controle da dor não inferior ao da combinação de codeína e paracetamol após a PRK, além de resultados semelhantes na recuperação visual e nos demais parâmetros avaliados.

O estudo abre espaço para investigar o CBD como uma possível estratégia de redução do uso de opioides em situações de dor aguda.

No entanto, os próprios resultados precisam ser interpretados dentro do contexto em que foram obtidos: trata-se de um estudo com apenas 35 participantes e realizado em uma situação cirúrgica específica.

Dessa forma, os dados não permitem concluir que o CBD possa substituir opioides para qualquer tipo de dor ou em todos os contextos pós-operatórios. Novos estudos, com amostras maiores e diferentes condições de dor, poderão ajudar a determinar se esse efeito se mantém em outros contextos clínicos.

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Published On: Setembro 4th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /