Pesquisa da UFPB acompanhou 65 adultos durante oito semanas 

Um estudo clínico realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) identificou uma redução significativa dos sintomas de ansiedade após oito semanas de tratamento com um extrato de Cannabis rico em canabidiol (CBD).

A pesquisa acompanhou inicialmente 65 adultos e utilizou doses ajustadas de forma progressiva, entre 50 e 200 miligramas de CBD por dia. Ao final do acompanhamento, a pontuação média dos participantes no Inventário de Ansiedade de Beck caiu de 35,7 para 12,2 pontos.

A proporção de participantes classificados com ansiedade grave também apresentou queda expressiva: passou de 74,5% no início do estudo para 21,6% após o tratamento.

Os resultados foram publicados no suplemento da revista científica European Psychiatry e ampliam as evidências sobre o possível papel do CBD no manejo de sintomas de ansiedade. Os próprios pesquisadores, entretanto, destacam a necessidade de estudos maiores e controlados para confirmar os achados.

Como o estudo foi realizado

A pesquisa foi conduzida como um ensaio clínico prospectivo de braço único. Isso significa que todos os participantes receberam o tratamento com o extrato rico em CBD, sem a existência de um segundo grupo recebendo placebo ou outro tratamento para comparação.

Durante oito semanas, os pesquisadores acompanharam a resposta dos participantes ao uso oral do produto.

O protocolo começou com uma dose diária de 50 miligramas de CBD. A cada duas semanas, a quantidade poderia ser aumentada em mais 50 miligramas, até atingir o limite de 200 miligramas por dia.

O aumento, entretanto, dependia da tolerância individual. Caso o participante apresentasse dificuldade com uma dose maior, permanecia utilizando a última quantidade que havia tolerado adequadamente.

A estratégia procurou reproduzir uma característica comum da prática clínica com canabinoides: a individualização do tratamento, em vez da utilização de uma dose única para todos os pacientes.

Antes do início e ao final das oito semanas, os participantes responderam ao Inventário de Ansiedade de Beck, conhecido pela sigla BAI. O instrumento é utilizado para mensurar a intensidade de diferentes sintomas relacionados à ansiedade.

Sintomas de ansiedade apresentaram queda

Entre os participantes que concluíram o protocolo, a pontuação média no BAI passou de 35,7 pontos antes do tratamento para 12,2 após as oito semanas de acompanhamento.

A mudança também apareceu na classificação da gravidade dos sintomas. No começo do estudo, 74,5% dos participantes estavam na faixa considerada de ansiedade grave. Ao final, esse percentual havia diminuído para 21,6%.

Os pesquisadores também realizaram uma análise considerando os participantes originalmente incluídos no estudo, inclusive aqueles que não concluíram todo o protocolo. Mesmo nesse cenário, a redução dos sintomas permaneceu estatisticamente significativa.

Outro dado observado foi a resposta entre participantes que já utilizavam medicamentos psicotrópicos. Nesse grupo, a redução média na pontuação de ansiedade foi maior do que entre aqueles que não faziam uso concomitante dessas medicações.

O resultado, entretanto, não permite afirmar que a combinação entre CBD e medicamentos convencionais seja necessariamente mais eficaz. São necessárias pesquisas específicas para avalia possíveis interações e determinar quais fatores influenciaram essa diferença.

Dosagem individualizada

Dos participantes que completaram as oito semanas de tratamento, 26 chegaram à dose de 200 miligramas de CBD por dia.

Outros dez permaneceram em 150 miligramas, sete utilizaram 100 miligramas e oito concluíram o protocolo com a dose inicial de 50 miligramas diários.

A distribuição chama atenção porque a redução dos sintomas não ficou restrita aos participantes que chegaram à maior dose prevista.

O dado reforça um dos princípios discutidos na medicina canabinoide: a resposta aos canabinoides pode variar de forma importante entre indivíduos, e doses maiores não significam necessariamente melhores resultados para todas as pessoas.

Efeitos adversos foram registrados

Dos 65 participantes inicialmente incluídos, seis interromperam o tratamento por intolerância. Entre os efeitos adversos mais frequentes estavam náusea, sonolência e diarreia.

Os resultados mostram que, embora o CBD seja frequentemente associado a um perfil de tolerabilidade favorável, o uso não é isento de efeitos adversos e a resposta pode variar entre pacientes.

Por isso, dose, formulação, uso concomitante de medicamentos e condições individuais precisam ser considerados durante o acompanhamento.

O que os resultados indicam?

A redução observada nos sintomas é relevante, especialmente porque ocorreu em uma pesquisa clínica realizada com adultos e com doses ajustadas individualmente. Mas há uma limitação importante: o estudo não contou com um grupo placebo.

Sem essa comparação, não é possível determinar quanto da melhora ocorreu diretamente em razão do extrato rico em CBD e quanto poderia estar relacionado a outros fatores, como expectativa em relação ao tratamento, evolução natural dos sintomas ou mudanças ocorridas durante as oito semanas.

Além disso, dos 65 participantes recrutados inicialmente, 51 concluíram o protocolo, o que ainda representa uma amostra relativamente pequena.

Por isso, os resultados não comprovam que o CBD seja um tratamento eficaz para todos os transtornos de ansiedade nem estabelecem uma dose padrão para esse tipo de cuidado.

Eles indicam, porém, um sinal clínico que merece ser investigado em ensaios randomizados, controlados por placebo e com um número maior de participantes.

Cannabis e saúde mental seguem no radar da ciência

O interesse científico sobre o uso dos canabinoides na saúde mental vem crescendo, especialmente em relação ao CBD.

Diferentemente do THC, o canabidiol não está associado ao efeito intoxicante característico da Cannabis e vem sendo investigado por sua possível atuação em diferentes mecanismos relacionados à ansiedade e à resposta ao estresse.

As evidências disponíveis, entretanto, ainda variam de acordo com a condição estudada, a formulação utilizada, a dose e o desenho de cada pesquisa.

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Published On: Agosto 11th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /