Pesquisa acompanhou 24 cães durante 90 dias e identificou produtos de cânhamo promovem mudanças distintas e benéficas na flora intestinal dos animais

A Cannabis começa a ocupar um espaço que vai além do uso de canabinoides como CBD e THC na medicina veterinária. Um novo estudo aponta que ingredientes produzidos a partir das sementes do cânhamo também podem ter aplicações na nutrição animal, especialmente na modulação da microbiota intestinal de cães.

Publicada na revista científica Veterinary Sciences, a pesquisa acompanhou 24 cães adultos e saudáveis durante 90 dias. Os pesquisadores avaliaram como duas formulações derivadas da semente de cânhamo — um óleo rico em gorduras e um subproduto com maior concentração de fibras — influenciaram as comunidades de bactérias presentes no intestino dos animais.

Os resultados mostraram que as duas formulações alteraram a microbiota de maneiras diferentes, sem comprometer a estabilidade do ecossistema intestinal. O óleo de semente de cânhamo foi associado ao aumento da riqueza bacteriana, enquanto o subproduto fibroso favoreceu microrganismos relacionados à fermentação de carboidratos.

Pesquisa avalia o cânhamo como ingrediente nutricional

Apesar de ter origem na espécie Cannabis sativa L., o óleo utilizado na pesquisa não deve ser confundido com os óleos medicinais ricos em CBD (canabidiol), THC (tetrahidrocanabinol) ou outros fitocanabinoides.

O estudo analisou o óleo extraído das sementes do cânhamo e um subproduto obtido após seu processamento. Esses ingredientes são investigados principalmente por suas propriedades nutricionais, como a presença de fibras, proteínas e ácidos graxos.

Produtos canabinoides usados em tratamentos veterinários, por outro lado, são geralmente produzidos a partir de outras partes da planta e possuem concentrações específicas de substâncias como canabidiol e tetrahidrocanabinol.

A distinção é importante: a pesquisa não avaliou o tratamento de doenças com Cannabis medicinal, mas o potencial de ingredientes derivados do cânhamo como componentes funcionais da alimentação canina.

 

Como o estudo foi realizado

Os 24 cães foram divididos aleatoriamente em três grupos, com oito animais em cada um. O primeiro recebeu uma alimentação controle, sem ingredientes derivados do cânhamo. O segundo consumiu uma dieta com inclusão de 11% de um subproduto da semente, rico em fibras. Já o terceiro recebeu uma ração revestida com 2% de óleo de semente de cânhamo.

Amostras fecais foram coletadas no início da pesquisa e após 30 e 90 dias. Por meio do sequenciamento do gene 16S rRNA, os cientistas identificaram e compararam as famílias e os gêneros de bactérias encontrados no intestino dos animais.

Além da microbiota, os pesquisadores acompanharam o peso corporal, o consumo de alimentos, a consistência das fezes e parâmetros hematológicos e bioquímicos.

Óleo aumentou a riqueza bacteriana

Os cães que receberam óleo de semente de cânhamo apresentaram o aumento mais evidente na riqueza de espécies bacterianas ao longo dos 90 dias.

Esse grupo também registrou maior presença de bactérias da família Lactobacillaceae, com destaque para o gênero Ligilactobacillus. Microrganismos desse grupo produzem ácido lático e vêm sendo estudados por sua possível relação com a integridade da barreira intestinal e o equilíbrio da microbiota.

De acordo com os autores, o efeito pode estar relacionado ao perfil de gorduras do óleo de cânhamo, especialmente à presença de ácidos graxos poli-insaturados. A composição exata desses ácidos nas dietas, entretanto, não foi quantificada, o que impede afirmar qual mecanismo provocou as mudanças observadas.

Subproduto favoreceu outro grupo de bactérias

O subproduto da semente de cânhamo apresentou um efeito diferente. Por ser mais rico em fibras insolúveis, o ingrediente foi associado ao crescimento de bactérias do filo Actinobacteriota, particularmente do gênero Collinsella.

Esse grupo participa da fermentação de carboidratos e pode contribuir para a produção de ácidos graxos de cadeia curta. Tais substâncias são produzidas quando as bactérias intestinais fermentam componentes da alimentação e podem servir como fonte de energia para as células do intestino.

A abundância relativa de Collinsella chegou a 17,5% no grupo que recebeu o subproduto, o maior percentual observado entre as três dietas. Os dados reforçam que diferentes partes ou formulações do cânhamo não provocam necessariamente os mesmos efeitos.

Enquanto o óleo pareceu ampliar a riqueza geral de bactérias, o ingrediente fibroso estimulou grupos específicos relacionados ao aproveitamento dos carboidratos.

Microbiota permaneceu estável

Outro resultado relevante foi a preservação da estabilidade ecológica da microbiota. Embora tenham ocorrido mudanças na composição bacteriana ao longo do período, os pesquisadores observaram que as comunidades intestinais caminharam para uma configuração mais estável no 90º dia.

Nenhum dos cães apresentou diarreia durante a intervenção. O peso corporal, os escores fecais e os parâmetros sanguíneos também permaneceram dentro dos padrões considerados normais.

Para os autores, os dados indicam que tanto o óleo quanto o subproduto da semente podem ser utilizados como ingredientes funcionais na alimentação canina sem provocar uma desorganização importante da microbiota.

Isso não significa, entretanto, que qualquer produto de cânhamo possa ser acrescentado à alimentação dos animais sem orientação. A composição, a concentração, a qualidade da matéria-prima e o equilíbrio nutricional da dieta precisam ser considerados por profissionais capacitados.

Resultados ainda são iniciais

A pesquisa é classificada pelos próprios autores como exploratória. A amostra foi pequena, com apenas 24 cães, e incluiu somente animais adultos e saudáveis. Dessa forma, os resultados não mostram se os mesmos efeitos ocorreriam em filhotes, cães idosos ou animais com doenças gastrointestinais, metabólicas ou imunológicas.

O estudo indica que os ingredientes modificaram a composição das bactérias intestinais, mas pesquisas maiores ainda serão necessárias para verificar se essa modulação se traduz em vantagens concretas para a saúde.

Os autores também defendem a realização de novos trabalhos com dietas nutricionalmente equivalentes e avaliações mais detalhadas dos metabólitos produzidos pelas bactérias.

Cannabis medicinal na veterinária

Enquanto derivados das sementes começam a ser investigados na nutrição, os fitocanabinoides já vêm ganhando espaço na prática clínica veterinária. Assim como os seres humanos, os animais possuem um sistema endocanabinoide.

Essa rede de receptores, enzimas e moléculas produzidas pelo próprio organismo participa da regulação de processos como dor, inflamação, apetite, sono, resposta imunológica, comportamento e funções neurológicas.

Compostos da Cannabis, como CBD, THC e CBG, podem interagir com esse sistema e vêm sendo utilizados de maneira individualizada em diferentes contextos clínicos. Entre as principais áreas estudadas e observadas na prática veterinária estão o manejo da dor crônica e de inflamações associadas a artrites, artroses e displasias; o apoio ao controle de crises epilépticas; o tratamento complementar de quadros comportamentais, como ansiedade e fobias; e os cuidados paliativos de animais com câncer ou doenças degenerativas.

O CBD é um dos compostos mais utilizados devido às suas propriedades anticonvulsivantes, analgésicas e anti-inflamatórias e por não provocar os efeitos intoxicantes associados ao THC. O THC também pode ter aplicações terapêuticas, especialmente em situações de dor intensa, náuseas, perda de apetite e cuidados paliativos.

Sua utilização em animais, contudo, exige cautela ainda maior, porque doses inadequadas podem provocar letargia, desorientação, dificuldade de equilíbrio e intoxicação.
Por isso, a escolha da formulação e da dose deve considerar espécie, peso, idade, diagnóstico, condições preexistentes e outros medicamentos utilizados pelo animal.

Prescrição deve ter acompanhamento veterinário

No Brasil, a Anvisa autorizou a regularização de produtos à base de Cannabis para uso em animais e a prescrição de produtos devidamente regularizados por médicos-veterinários habilitados.
A dispensação está sujeita aos controles aplicáveis aos medicamentos especiais, incluindo a utilização de receita veterinária e sua retenção no estabelecimento responsável.

A mudança regulatória ampliou as possibilidades de pesquisa, desenvolvimento e acompanhamento clínico, mas não transformou a Cannabis em uma solução indicada para todos os animais ou condições.

Produtos canabinoides não devem ser administrados por iniciativa própria dos tutores. Além do risco de doses inadequadas, formulações destinadas a seres humanos podem conter concentrações ou ingredientes incompatíveis com a segurança animal.

Diferentes possibilidades de uma mesma planta

O novo estudo amplia a compreensão sobre a presença da Cannabis na saúde veterinária. De um lado, estão os fitocanabinoides utilizados com finalidade terapêutica e sob prescrição profissional. De outro, ingredientes derivados das sementes do cânhamo começam a ser avaliados como fontes de fibras, proteínas e gorduras funcionais para a alimentação. Embora pertençam à mesma planta, essas aplicações envolvem produtos, mecanismos e objetivos diferentes.

Ao mostrar que o óleo e o subproduto da semente modificaram a microbiota canina sem romper sua estabilidade, a pesquisa abre caminho para novas investigações sobre nutrição funcional. Ainda será necessário descobrir quais animais podem se beneficiar, quais formulações são mais adequadas e se as mudanças bacterianas observadas realmente produzem efeitos clínicos relevantes.

A ciência veterinária da Cannabis continua em construção. E, à medida que o conhecimento avança, cresce também a necessidade de diferenciar evidências promissoras de conclusões definitivas — garantindo que inovação, segurança e bem-estar animal caminhem juntos.

Inicie seu tratamento 

O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).

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Published On: Agosto 6th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /