Pesquisa brasileira acompanhou 20 pacientes por quatro semanas e encontrou pontuação de dor menor no grupo que associou o CBD ao tratamento convencional

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros identificou resultados promissores para o uso do canabidiol (CBD), como terapia complementar no tratamento da dor orofacial relacionada às disfunções temporomandibulares.

A pesquisa analisou prontuários de 20 pacientes atendidos em um centro especializado de Cascavel, no Paraná. Após quatro semanas, os participantes que receberam canabidiol junto ao tratamento conservador convencional apresentaram níveis de dor menores do que aqueles que realizaram apenas o tratamento convencional.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e publicado na revista científica Peer Review.

O que são as disfunções temporomandibulares?

As disfunções temporomandibulares, também conhecidas pela sigla DTM, formam um conjunto de condições que afetam as articulações da mandíbula, os músculos responsáveis pela mastigação e os tecidos próximos.

Entre os sintomas mais frequentes estão dor na mandíbula e nos músculos da face, rigidez, limitação para abrir a boca e estalos dolorosos durante os movimentos mandibulares. Em alguns pacientes, a dor também pode se espalhar para o pescoço e interferir em atividades como falar, comer e mastigar.

As causas nem sempre são facilmente identificadas. Fatores musculares, articulares, comportamentais e emocionais podem participar do desenvolvimento ou da manutenção da dor. Por isso, o tratamento costuma ser conservador e individualizado, podendo incluir orientações para reduzir a sobrecarga da mandíbula, fisioterapia, exercícios, medicamentos, aplicação de calor ou frio e mudanças em hábitos como apertar os dentes e mascar chiclete.

Como o estudo foi realizado

Os pesquisadores analisaram os registros clínicos de 20 pacientes tratados entre novembro e dezembro de 2024.Os participantes foram divididos em dois grupos. Um deles recebeu somente o t ratamento conservador convencional para a disfunção temporomandibular. O outro realizou o mesmo tratamento, mas com a adição do canabidiol como terapia complementar.

A intensidade da dor foi medida no início do acompanhamento e novamente após quatro semanas, por meio da Escala Visual Analógica, conhecida como EVA. Nesse instrumento, o paciente indica a intensidade da dor percebida. Quanto maior a pontuação, maior o desconforto relatado.

É importante destacar que o canabidiol não foi utilizado como substituto do cuidado convencional. O objetivo da pesquisa foi investigar se sua inclusão poderia potencializar o controle da dor.

Dor diminuiu nos dois grupos

Os dois grupos apresentaram redução significativa da dor ao final do período analisado. Entre os pacientes que receberam apenas o tratamento convencional, a mediana da pontuação de dor caiu de 8 para 3. No grupo que também utilizou canabidiol, a mediana passou de 9 para 1,5.

A mediana representa o valor central das respostas dos participantes. Portanto, os números indicam que, embora os dois tratamentos tenham produzido melhora, os pacientes que receberam CBD chegaram ao final das quatro semanas com uma intensidade de dor menor.

A comparação entre os grupos também apresentou diferença estatisticamente significativa, o que reforça a possibilidade de que o canabidiol tenha contribuído para o resultado observado.

Canabidiol foi utilizado como terapia complementar

O principal ponto da pesquisa está no caráter adjuvante do tratamento. Isso significa que o canabidiol foi acrescentado a uma estratégia terapêutica já existente, e não utilizado  de maneira isolada.

Essa distinção é importante porque as disfunções temporomandibulares são condições complexas. A dor pode estar relacionada a alterações musculares, inflamação, sobrecarga da articulação, bruxismo, estresse e outros fatores que exigem uma abordagem integrada.

Os resultados sugerem que o CBD pode ocupar um espaço complementar no cuidado de pacientes que continuam apresentando dor mesmo após o início das medidas conservadoras. No entanto, o estudo não permite concluir que o canabidiol deva substituir fisioterapia, medicamentos convencionais ou outras intervenções recomendadas por médicos e cirurgiões-dentistas.

Como o CBD pode atuar sobre a dor?

O canabidiol é um dos compostos encontrados na Cannabis e não está associado aos efeitos intoxicantes característicos do tetrahidrocanabinol, o THC. Pesquisas anteriores indicam que o CBD pode interagir com diferentes receptores e canais celulares relacionados à percepção da dor e à resposta inflamatória.

Um dos mecanismos investigados envolve o canal TRPV1, que participa da transmissão e da modulação dos estímulos dolorosos. O canabidiol também pode influenciar indiretamente o sistema endocanabinoide, uma rede de sinalização que atua na regulação da dor, do sono, do humor e de diferentes processos do organismo.

Apesar desses mecanismos possíveis, a literatura científica sobre o uso de canabinoides na odontologia ainda apresenta resultados variados.

Alguns estudos clínicos observaram redução da dor dental e miofascial, enquanto outros não identificaram superioridade em relação aos tratamentos convencionais. Revisões científicas recentes consideram os canabinoides uma possibilidade promissora para o manejo da dor orofacial, mas reforçam que ainda são necessários estudos clínicos maiores, padronizados e com acompanhamento prolongado.

O que os resultados significam?

O estudo fornece uma evidência inicial de que o canabidiol pode aumentar o alívio da dor quando utilizado junto ao tratamento conservador das disfunções temporomandibulares. Entretanto, os dados devem ser interpretados com cautela.

A pesquisa foi retrospectiva, ou seja, analisou informações que já estavam registradas nos prontuários. Não se tratou de um ensaio clínico randomizado, no qual os participantes são distribuídos aleatoriamente entre os tratamentos e acompanhados sob condições rigorosamente controladas.

Além disso, a amostra reuniu apenas 20 pacientes e o acompanhamento teve duração de quatro semanas. Essas características impedem afirmar que o canabidiol foi o único responsável pela diferença encontrada.

Aspectos como o perfil dos pacientes, a intensidade inicial da dor, outros tratamentos realizados e diferenças individuais na resposta terapêutica também podem ter influenciado os resultados.

Um ponto de partida para novas pesquisas

Mesmo com as limitações, os achados acrescentam informações relevantes a uma área que ainda conta com poucos estudos clínicos. O próximo passo será realizar ensaios controlados, com maior número de participantes, acompanhamento mais longo e protocolos capazes de comparar diferentes doses e formulações.

Esses trabalhos também deverão avaliar outros desfechos importantes, como capacidade de mastigação, amplitude dos movimentos da mandíbula, qualidade do sono, uso de analgésicos e impacto da dor na rotina.

Por enquanto, o canabidiol deve ser entendido como uma possibilidade complementar que precisa ser avaliada de forma individualizada. A pesquisa aponta um caminho promissor, mas ainda não estabelece um protocolo universal para o tratamento das disfunções temporomandibulares.

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Published On: Agosto 4th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /