Dados apontam movimentação superior a R$ 470 milhões no primeiro semestre e revelam oportunidades que conectam saúde, agronegócio, indústria, ciência e bioeconomia
O Brasil ultrapassou uma marca simbólica para o setor da Cannabis medicinal. Em junho de 2026, o país chegou a 1.012.887 pacientes recorrentes em tratamento com produtos à base da planta, segundo levantamento apresentado pela consultoria Kaya Mind.
Os tratamentos já alcançam mais de 5 mil municípios, o equivalente a aproximadamente 90% das cidades brasileiras.
Além disso, somente no primeiro semestre deste ano, o mercado movimentou mais de R$ 470 milhões.
Os dados foram divulgados durante a coletiva de lançamento da ExpoCannabis Brasil 2026, realizada no Consulado-Geral do Uruguai, em São Paulo. O encontro reuniu representantes da Kaya Mind, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da ExpoCannabis Brasil e especialistas de diferentes áreas.

Mais do que apresentar o crescimento do mercado medicinal, o debate apontou para uma mudança de perspectiva.
A Cannabis começa a deixar de ser discutida exclusivamente como um recurso terapêutico e passa a integrar conversas sobre agricultura, indústria farmacêutica, construção civil, cosméticos, medicina veterinária, pesquisa científica e desenvolvimento sustentável.
Mercado medicinal ainda pode crescer
Para Thiago Cardoso, CEO da Kaya Mind, o número de pacientes mostra que o crescimento da Cannabis medicinal deixou de ser apenas uma projeção.
“Hoje alcançamos um marco histórico. Pela primeira vez, o Brasil ultrapassou 1 milhão de pacientes em tratamento com Cannabis medicinal”, afirmou.
Apesar do avanço, o levantamento da consultoria indica que o mercado brasileiro ainda estaria distante de atingir todo o seu potencial. A estimativa apresentada por Cardoso é de que cerca de 6,9 milhões de pessoas possam utilizar medicamentos à base de Cannabis no país.
A diferença entre o número atual e a projeção mostra que o crescimento do setor dependerá não apenas do interesse de empresas e investidores, mas também da ampliação da formação profissional, da produção científica, da segurança regulatória e das diferentes formas de acesso aos tratamentos.
O faturamento registrado no primeiro semestre também ajuda a dimensionar a transformação econômica em curso.
Entretanto, o aumento da movimentação financeira não significa que a cadeia produtiva esteja completamente estruturada.
Grande parte do setor brasileiro ainda atravessa uma fase de transição, marcada pela construção de regras, modelos produtivos e parâmetros de qualidade.
Nova legislação começa a estruturar a produção nacional
Um dos fatores que podem modificar esse cenário é o novo conjunto de normas aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Publicadas em fevereiro de 2026, as resoluções regulamentam a produção de Cannabis para fins medicinais e farmacêuticos, estabelecem regras específicas para pesquisas e criam um ambiente regulatório experimental voltado às associações de pacientes.
A RDC 1.013/2026 determina os requisitos para a produção por pessoas jurídicas autorizadas, incluindo inspeção sanitária, rastreabilidade, segurança dos locais e controle permanente das atividades.
A RDC 1.012/2026 estabelece regras para instituições de ensino e pesquisa, enquanto a RDC 1.014/2026 cria um instrumento específico para associações de pacientes sem fins lucrativos. Já a a RDC 1.015/2026 atualiza as normas de fabricação e importação de produtos de Cannabis.
As resoluções foram publicadas em 3 de fevereiro e têm entrada em vigor prevista para agosto de 2026. Por isso, seus efeitos ainda não são imediatos para pacientes, pesquisadores ou empresas.
Em maio, a Anvisa também publicou regras relacionadas à rotulagem, dispensação, exportação de produtos e exportação de insumos farmacêuticos ativos produzidos no Brasil. O conjunto de medidas representa um avanço importante para a cadeia medicinal e farmacêutica.
No entanto, as novas normas não equivalem a uma autorização ampla para todos os usos industriais do cânhamo. Aplicações em áreas como alimentação, tecidos, biocombustíveis e construção ainda dependem de regulamentações específicas e da participação de outros órgãos públicos.
Da flor à fibra: o aproveitamento integral da planta
A possibilidade de desenvolver uma economia que ultrapasse o mercado de medicamentos foi um dos pontos centrais da discussão.
Em países que já regulamentaram os usos industriais do cânhamo — variedade da Cannabis caracterizada pelo baixo teor de THC — diferentes partes da planta podem abastecer cadeias produtivas distintas.
As flores são utilizadas principalmente no desenvolvimento de produtos medicinais e farmacêuticos. As fibras presentes no caule podem ser aproveitadas pela indústria têxtil, na fabricação de papéis, bioplásticos, materiais isolantes e componentes destinados à construção civil.
Por sua vez, as sementes despertam interesse das áreas de alimentação, nutrição animal, produção de óleos e biocombustíveis. Ademais, folhas e outros componentes da planta também são estudados pelas indústrias cosmética e de cuidados pessoais.
“O que será feito com o caule da planta? Com as fibras? Com as sementes? É justamente aí que começa uma enorme oportunidade para a indústria”, avaliou Thiago Cardoso.
O desafio, portanto, não se limita à autorização para plantar. Para que o potencial econômico se concretize, será necessário criar estruturas de beneficiamento, processamento, controle de qualidade, transporte, pesquisa e desenvolvimento de produtos.
Não basta plantar
A pesquisadora Daniela Bittencourt, da Embrapa, destacou que a construção de uma cadeia nacional dependerá da capacidade brasileira de transformar a matéria-prima em produtos de maior valor agregado.
“Não basta plantar. Precisamos desenvolver toda a cadeia, da semente ao produto final”, afirmou.
O trabalho começa antes mesmo do cultivo comercial. Pesquisadores precisam identificar variedades adaptadas aos diferentes climas e solos brasileiros, avaliar técnicas de manejo, estabelecer padrões de qualidade e compreender como cada material vegetal pode ser utilizado pela indústria.
Na avaliação de Bittencourt, o Brasil ainda está no início desse processo. “Estamos diante da ponta do iceberg. Ao mesmo tempo em que surge uma enorme oportunidade, também nasce uma grande responsabilidade: construir toda a cadeia produtiva.”
Essa construção envolve decisões sobre genética, sementes, sistemas de cultivo, colheita, armazenamento, processamento, rastreabilidade e destinação dos resíduos.
Também exige integração entre universidades, centros de pesquisa, produtores rurais, órgãos reguladores e empresas.
Cannabis pode integrar políticas de bioeconomia
Além do aproveitamento industrial, a Cannabis começa a aparecer em discussões sobre bioeconomia, agricultura sustentável, inovação tecnológica e desenvolvimento regional.
De acordo com Daniela Bittencourt, a planta pode contribuir para pesquisas relacionadas à recuperação de áreas degradadas, captura de carbono, diversificação de cultivos e desenvolvimento de novos materiais.
“A Cannabis pode contribuir para diversas políticas públicas, especialmente nas áreas de bioeconomia, desenvolvimento sustentável, mitigação das mudanças climáticas e inovação tecnológica”, declarou.
Essas possibilidades, contudo, precisam ser avaliadas por pesquisas conduzidas nas condições brasileiras. Resultados observados em outros países não podem ser automaticamente reproduzidos sem considerar diferenças de clima, solo, legislação, escala produtiva e infraestrutura industrial.
O papel de instituições como a Embrapa será justamente produzir dados que permitam avaliar quais aplicações são tecnicamente viáveis, economicamente competitivas e ambientalmente adequadas ao contexto nacional.
Medicina veterinária ganha reconhecimento
A medicina veterinária é outra área que começa a consolidar sua presença no setor. Em julho de 2026, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) habilitou a Associação Medicinal de Endocanabinologia Veterinária (AMEC-VET) a conceder o título de especialista em Endocanabinologia Veterinária.
A decisão cria um caminho oficial para a certificação de médicos-veterinários que atuam no estudo do sistema endocanabinoide e de suas aplicações na saúde animal.
O reconhecimento não significa a aprovação automática de tratamentos ou produtos. Ele estabelece critérios nacionais para formação, avaliação e certificação dos profissionais, fortalecendo a necessidade de uma atuação baseada em evidências, acompanhamento clínico e responsabilidade técnica.
Para Bruno Perozzo, integrante da Comissão Científica de Medicina Veterinária da ExpoCannabis Brasil, o avanço pode estimular a formação profissional e a produção de pesquisas.

“Esse reconhecimento demonstra a importância da endocanabinologia como área de estudo, pesquisa e formação profissional”, afirmou.
A programação científica do evento deverá abordar animais de companhia, produção animal, fauna silvestre e possíveis interfaces entre a medicina veterinária e a medicina humana.
O que falta para essa nova economia avançar?
Os números apresentados durante o lançamento da ExpoCannabis Brasil demonstram que o mercado medicinal já alcançou uma escala relevante.
A criação de uma cadeia econômica mais ampla, no entanto, dependerá de fatores que ainda estão em desenvolvimento.
Entre eles estão a entrada efetiva em vigor das novas regras, a definição de normas para usos não medicinais do cânhamo, a produção de pesquisas nacionais, a formação de profissionais, a disponibilidade de sementes e variedades adequadas e a criação de infraestrutura industrial.
Também será necessário estabelecer mecanismos que transformem crescimento econômico em benefícios concretos para pacientes, pesquisadores, produtores e para o sistema de saúde.
O Brasil possui experiência agrícola, capacidade científica e um mercado consumidor de grandes proporções. Esses fatores podem colocar o país em posição estratégica, mas não garantem, por si só, o desenvolvimento da cadeia.
O potencial existe. A forma como ele será convertido em acesso, inovação, produção nacional e desenvolvimento econômico dependerá das escolhas regulatórias e científicas feitas nos próximos anos.
ExpoCannabis Brasil 2026
A quarta edição da ExpoCannabis Brasil será realizada entre os dias 20 e 22 de novembro, no São Paulo Expo.

A programação deverá reunir pesquisadores, profissionais da saúde, associações de pacientes, empresários, investidores, representantes do poder público e organizações ligadas à cadeia da Cannabis.
O evento contará com Fórum Internacional, Congresso Científico Dr. Elisaldo Carlini, workshops, Arena do Conhecimento e Lounge Literário.
Antes da abertura da feira, a organização prevê realizar, em 18 de novembro, o Cannabis Business Hub, encontro direcionado a investidores, empresários, empreendedores e profissionais do setor.
Inicie seu tratamento
O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).
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