Projetos envolvem melhoramento genético, rastreabilidade, banco de sementes e articulação entre ciência, setor produtivo e políticas públicas

A Embrapa vem estruturando sua atuação na pesquisa com Cannabis sativa em diferentes frentes, com foco na construção de bases técnicas e científicas para o desenvolvimento do setor no Brasil.

Entre os principais eixos estão genética e melhoramento, sistemas de produção, qualidade, rastreabilidade, usos medicinais e industriais, além da formação de parcerias voltadas a uma futura cadeia produtiva nacional.

Segundo Daniela Bittencourt, representante da instituição, esse movimento começou a ganhar corpo em 2021, quando o tema passou a ser discutido de forma mais consistente dentro do Portfólio BiotecAgro.

“Já chamava atenção o crescimento das demandas da sociedade brasileira em torno do uso medicinal da Cannabis, bem como a necessidade de ampliar o debate técnico-científico sobre o tema dentro de uma instituição pública de pesquisa como a Embrapa”, afirmou.

Pesquisa em fase inicial, mas com visão integrada

De acordo com Daniela, as frentes de pesquisa ainda estão em estágio inicial de estruturação, mas já foram desenhadas para avançar de forma complementar.

Neste momento, a Embrapa organiza a infraestrutura necessária para o início dos estudos, em conformidade com as exigências regulatórias da Anvisa.

Na área de genética, o foco está na futura estruturação de bancos de germoplasma e na caracterização molecular dos materiais.

Em sistemas de produção, a perspectiva é desenvolver e validar protocolos agronômicos, especialmente em ambiente controlado, com atenção ao manejo, colheita e pós-colheita.

Já a rastreabilidade aparece como um eixo transversal, acompanhando toda a cadeia de pesquisa, desde a origem do material vegetal até os dados de desempenho e qualidade.

“Trata-se de uma agenda ainda em construção, mas já planejada com uma visão integrada, justamente para que genética, produção e rastreabilidade avancem de forma coordenada e consistente”, diz Daniela.

O desafio de produzir conhecimento adaptado ao Brasil

Um dos principais obstáculos apontados pela pesquisadora é a necessidade de gerar conhecimento científico ajustado às condições brasileiras.

Hoje, boa parte das referências disponíveis foi produzida em outros países, sob contextos climáticos, regulatórios, genéticos e produtivos diferentes dos encontrados no Brasil.

“Isso significa que o Brasil precisa construir sua própria base de dados, protocolos e referências técnicas para que o desenvolvimento dessa cadeia ocorra de forma segura e consistente”, explicou Daniela.

Ela destaca ainda que, no caso da Cannabis, não basta apenas cultivar a planta. É preciso compreender como genética, ambiente, manejo e pós-colheita interagem para influenciar características importantes, como o teor de canabinoides e terpenos.

Um ponto sensível, segundo ela, é o rigor exigido para o controle do THC, que deve permanecer em até 0,3% para fins comerciais.

“Um dos grandes desafios é justamente desenvolver sistemas e materiais que permitam manter esse padrão de forma estável, rastreável e reprodutível ao longo dos ciclos produtivos e entre diferentes lotes”, afirmou.

Daniela também ressaltou que o desafio não é apenas pesquisar Cannabis, mas criar as condições para que essa pesquisa aconteça “com robustez, conformidade regulatória e relevância para as demandas reais do país”.

Projeto da FINEP mira materiais genéticos voltados ao CBD

Entre os avanços recentes está a aprovação de um projeto pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), voltado ao melhoramento genético de Cannabis sativa para fins medicinais, com foco na obtenção de materiais voltados à produção de CBD.

No âmbito dessa iniciativa, Daniela coordena, na Embrapa Cenargen, um subprojeto dedicado à estruturação do banco de sementes, à conservação e organização do germoplasma e à caracterização molecular dos materiais.

Segundo ela, essa etapa é essencial para apoiar estratégias futuras de seleção, rastreabilidade e desenvolvimento de cultivares.

Ao explicar o objetivo prático do projeto, Daniela afirmou que a proposta é “desenvolver bases científicas e tecnológicas para a obtenção de materiais genéticos mais adequados à produção de canabidiol em condições brasileiras e alinhamento aos requisitos regulatórios”.

Na prática, acrescenta, a meta é contribuir para “uma cadeia produtiva mais estável, rastreável e tecnicamente qualificada, com foco na produção de IFAs”.

Estabilidade e adaptação climática estão entre as prioridades

Questionada sobre quais características são priorizadas no desenvolvimento dessas plantas, Daniela disse que o teor de CBD é relevante, mas não pode ser analisado isoladamente. “O teor de CBD é importante, mas ele precisa vir acompanhado de estabilidade genética, uniformidade química e boa adaptação às condições de cultivo no Brasil”, afirmou.

“Em outras palavras, o objetivo não é apenas obter plantas com alto teor de CBD, mas materiais mais consistentes, previsíveis e adequados à realidade produtiva e regulatória do país.”

HempTech busca conectar ciência, mercado e governo

Outra frente coordenada por Daniela é o projeto HempTech, desenvolvido em parceria para apoiar a estruturação do setor de Cannabis e cânhamo no Brasil. A iniciativa busca integrar inteligência estratégica, inovação e conexão com o ecossistema produtivo.

Segundo a pesquisadora, o HempTech funciona como “uma plataforma de articulação entre a ciência, o setor produtivo e o governo”. Entre os parceiros citados por ela estão o Instituto Ficus e o The Green Hub.

Um dos pilares do projeto é a criação de um observatório de Cannabis, em conjunto com a área de assessoria e inteligência estratégica da Presidência da Embrapa. A proposta é acompanhar tendências, mapear avanços regulatórios e tecnológicos e apoiar a tomada de decisão.

Além disso, o projeto promove o diálogo entre instituições de pesquisa, empresas e formuladores de políticas públicas. “Não basta apenas avançar na regulamentação do plantio; é fundamental criar as condições para que essa cadeia se desenvolva de forma consistente e gere impacto econômico e social real para o país”, disse Daniela.

Parcerias e oportunidades para uma cadeia nacional

De acordo com a representante da Embrapa, diferentes parcerias vêm sendo prospectadas com instituições públicas, universidades, empresas e organizações do ecossistema de inovação.

Há também interesse crescente em cooperação internacional, com foco na troca de experiências e no desenvolvimento conjunto de soluções.

Na avaliação de Daniela, as oportunidades mais promissoras estão na construção de uma cadeia produtiva nacional baseada em ciência, qualidade, rastreabilidade e inovação.

No campo medicinal, isso passa pelo desenvolvimento de uma matéria-prima mais padronizada, segura e previsível.

Já o cânhamo desponta com potencial em fibras, biomateriais, cosméticos, alimentos, bioinsumos e outros usos industriais ligados à bioeconomia.

“Em ambos os casos, o Brasil tem condições muito favoráveis para avançar, mas isso depende de um esforço articulado entre a pesquisa, a regulação, o setor produtivo e as políticas de inovação”, afirmou.

 

Base científica para o futuro da Cannabis no país

Para Daniela, o papel da Embrapa nessa agenda é ajudar a construir os alicerces técnicos e científicos para o desenvolvimento responsável e sustentável da cadeia produtiva de Cannabis e cânhamo no Brasil.

“Mais do que responder a uma demanda imediata, esses projetos contribuem para que o país avance com segurança, autonomia tecnológica e visão de longo prazo em um setor estratégico, de grande potencial econômico e social”, resumiu. 

Published On: Abril 17th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /