Pesquisa acompanhou pacientes por dois anos e observou melhora em dor e qualidade de vida

A dor relacionada ao câncer ainda é um dos grandes desafios da oncologia e dos cuidados paliativos. 

Mesmo com o uso de medicamentos já estabelecidos, como opioides e analgésicos convencionais, parte dos pacientes continua convivendo com sintomas persistentes e queda importante na qualidade de vida.

Nesse contexto, um novo estudo publicado na revista Supportive Care in Cancer avaliou o uso de produtos medicinais à base de Cannabis em pacientes com dor oncológica acompanhados por dois anos no UK Medical Cannabis Registry, registro britânico que reúne dados de pessoas que recebem prescrição de Cannabis medicinal no Reino Unido.

A pesquisa analisou 116 adultos cuja principal indicação para o tratamento era dor relacionada ao câncer. Todos já haviam tentado tratamentos convencionais e ainda apresentavam controle insuficiente dos sintomas.

Segundo os dados descritos pelo estudo, a maior parte dos participantes tinha doença avançada: cerca de 61% apresentavam câncer com metástase, 33% tinham doença localizada e 6% não apresentavam tumor sólido no momento de entrada no registro. A média de idade foi de 56 anos.

Como o estudo foi feito

Os participantes preencheram questionários antes do início do tratamento e depois de 1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses. Esses questionários são chamados de PROMs, sigla em inglês para “medidas de desfecho relatadas pelo paciente”.

Na prática, isso significa que os próprios pacientes informaram como estavam se sentindo em relação à dor, qualidade de vida, ansiedade, sono e impacto dos sintomas nas atividades diárias.

Entre as escalas utilizadas estavam a Escala Visual Analógica de Dor, que mede a intensidade da dor de 0 a 10; o Brief Pain Inventory, que avalia a gravidade da dor e o quanto ela interfere na vida cotidiana; o EQ-5D-5L, usado para medir qualidade de vida relacionada à saúde; o GAD-7, voltado para sintomas de ansiedade; e uma escala simples de qualidade do sono.

O que os resultados apontaram

Os resultados indicaram melhora em diferentes medidas relatadas pelos pacientes ao longo do acompanhamento.

A pontuação média de gravidade da dor foi menor em comparação ao início do estudo a partir dos seis meses de tratamento, com a maior mudança observada aos 18 meses.
A interferência da dor na rotina também apresentou redução em alguns períodos de acompanhamento.

Em termos práticos, isso significa que parte dos pacientes relatou não apenas sentir menos dor, mas também perceber menor impacto da dor em atividades como caminhar, trabalhar, dormir, se relacionar e manter tarefas do dia a dia.

Aos 24 meses, cerca de metade dos pacientes atingiu uma mudança considerada clinicamente relevante em escalas de dor: aproximadamente 50% na Escala Visual Analógica, 47% na gravidade da dor e 54% na interferência da dor na rotina.

Qualidade de vida, ansiedade e sono

Além da dor, o estudo também observou mudanças em indicadores de qualidade de vida, ansiedade e sono.

A pontuação média do EQ-5D-5L, instrumento que avalia dimensões como mobilidade, autocuidado, atividades habituais, dor/desconforto e ansiedade/depressão, passou de 0,38 no início do acompanhamento para 0,62 aos 24 meses. Quanto maior a pontuação, melhor a percepção geral de saúde.

Os pacientes também relataram melhora em sintomas de ansiedade e na qualidade do sono em grande parte dos períodos analisados.

Esse ponto é relevante porque a dor oncológica raramente aparece de forma isolada. Ela costuma estar associada a insônia, sofrimento emocional, fadiga e limitações funcionais, fatores que afetam diretamente o bem-estar do paciente e de sua rede de cuidado.

Efeitos adversos foram pouco percebidos

Ao longo dos dois anos, cinco dos 116 pacientes relataram efeitos adversos, totalizando 55 eventos.
A maior parte foi classificada como leve ou moderada, enquanto cerca de 21% dos eventos foram considerados graves. Não foram registrados efeitos adversos fatais ou com risco de morte.

Entre os efeitos mais comuns estavam fadiga, letargia, dificuldade de concentração, náusea e constipação. Um dado observado pelos autores foi que todos os pacientes que relataram efeitos adversos não tinham experiência prévia com Cannabis antes do início do tratamento.

Para os pesquisadores, isso pode indicar a importância de uma introdução gradual da dose e de acompanhamento mais próximo em pacientes que nunca utilizaram Cannabis medicinal.

O que esses dados significam?

Apesar dos resultados positivos, os autores reforçam que o estudo não permite afirmar que a Cannabis medicinal foi a causa direta das melhoras observadas.

Isso porque se trata de um estudo observacional, ou seja, os pesquisadores acompanharam pacientes que já estavam em tratamento, sem comparar os resultados com um grupo placebo ou com pacientes que não utilizaram Cannabis.

Em pacientes com câncer, essa interpretação é ainda mais complexa. A dor pode mudar ao longo do tempo por diversos motivos: evolução da doença, resposta a outros tratamentos, ajustes em medicamentos, radioterapia, cirurgias, cuidados paliativos ou mudanças no estado emocional.

Por isso, os achados devem ser lidos como um sinal promissor, mas ainda insuficiente para mudar condutas clínicas de forma ampla.

Cannabis medicinal não é primeira linha para dor oncológica

O estudo contribui para ampliar a base de dados sobre o uso medicinal da Cannabis em contextos complexos, como a dor relacionada ao câncer.

No entanto, os próprios autores destacam que ainda são necessários ensaios clínicos randomizados, com grupo controle e acompanhamento rigoroso, para entender melhor eficácia, segurança, doses, formulações e perfis de pacientes que podem se beneficiar.

Sendo assim, a pesquisa reforça a importância de ampliar as alternativas terapêuticas para pacientes que convivem com dor persistente, especialmente em um cenário no qual qualidade de vida, sono, funcionalidade e saúde emocional também precisam fazer parte do cuidado.

Inicie seu tratamento 

O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).

Mais de 30 patologias podem ser tratadas com a Cannabis. Quer saber mais e dar início ao tratamento?

Entre em contato com o nosso acolhimento e marque uma consulta.

https://informacann.com.br/acolhimento-pacientes-informacann/

Published On: Maio 22nd, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /