Pesquisa identificou que o canabidiol interferiu na infecção de células imunológicas envolvidas na transmissão mucosal do vírus
Uma nova pesquisa publicada na revista científica Mucosal Immunology aponta que o canabidiol (CBD) pode atuar na prevenção das etapas iniciais da transmissão do HIV-1.
O estudo observou que o CBD foi capaz de reduzir a infecção em diferentes células do sistema imunológico envolvidas na disseminação do vírus através das mucosas — principal via de transmissão sexual do HIV.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Cochin e da Université Paris Cité, na França, e investigou os efeitos do CBD em células humanas presentes em tecidos mucosos, como células de Langerhans, células dendríticas, macrófagos e linfócitos T CD4+, considerados alvos importantes do HIV durante os primeiros momentos da infecção.
O que os pesquisadores descobriram
Segundo os autores, o CBD conseguiu reduzir significativamente a capacidade do HIV-1 de infectar células imunológicas humanas em modelos laboratoriais.
O efeito foi observado especialmente em células de Langerhans — células presentes na pele e nas mucosas que desempenham papel central na captura e transmissão do vírus para os linfócitos T.
Os pesquisadores identificaram que esse efeito ocorreu por meio da ativação do receptor TRPV1, um canal iônico ligado a processos inflamatórios, dor e comunicação neuroimune. A ativação desse receptor pelo CBD estimulou mecanismos capazes de limitar a propagação viral.
O estudo também observou a participação do neuropeptídeo CGRP (calcitonin gene-related peptide), molécula envolvida na comunicação entre sistema nervoso e sistema imunológico. Em parte dos experimentos, a ação antiviral do CBD pareceu depender diretamente da liberação desse peptídeo pelas células analisadas.
Como o estudo foi realizado
Os experimentos foram conduzidos em modelos in vitro e ex vivo. Nos testes laboratoriais, os cientistas expuseram células imunológicas humanas ao HIV-1 na presença de CBD para avaliar se o composto alterava a capacidade de infecção viral.
Além disso, a equipe utilizou tecidos humanos de prepúcio em modelos ex vivo — método que permite estudar a transmissão mucosal do HIV em tecidos humanos vivos fora do organismo.
Nesse modelo, os pesquisadores analisaram os eventos iniciais da infecção viral em condições semelhantes às observadas durante a transmissão sexual.
Os resultados mostraram que o CBD reduziu a formação de conjugados entre células de Langerhans e linfócitos T CD4+, interação considerada fundamental para que o vírus consiga se disseminar nas fases iniciais da infecção. Também foi observada uma diminuição da infecção das células T nos tecidos analisados.
CBD ainda não é prevenção contra o HIV
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores ressaltam que o estudo ainda está em estágio pré-clínico e não significa que o CBD possa substituir métodos já aprovados de prevenção ao HIV, como preservativos ou a profilaxia pré-exposição (PrEP).
Os dados foram obtidos em laboratório e em tecidos humanos fora do organismo, o que significa que ainda são necessários estudos clínicos em humanos para avaliar eficácia real, segurança, dosagem adequada e possíveis interações com terapias antirretrovirais.
Ainda assim, os pesquisadores sugerem que produtos contendo CBD poderiam futuramente ser investigados como uma estratégia complementar de prevenção da transmissão mucosal do HIV, conceito que os autores descrevem como uma possível “CBD-PrEP”.
Cannabis e sistema imunológico
O estudo também reforça um campo crescente de pesquisas sobre a interação entre o sistema endocanabinoide e o sistema imunológico.
Nos últimos anos, diferentes trabalhos vêm investigando como canabinoides podem modular processos inflamatórios, respostas imunes e doenças infecciosas.
Atualmente, já existem evidências científicas do potencial terapêutico da Cannabis em diferentes condições médicas, especialmente relacionadas à dor crônica, epilepsia refratária, inflamação e distúrbios neurológicos.
No entanto, especialistas alertam que muitas aplicações ainda dependem de validação clínica robusta antes de serem incorporadas oficialmente à prática médica.
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