Conselho defende padronização, rastreabilidade e controle técnico para fortalecer o setor no Brasil, além de ter presença marcada na Cannabis Fair e CBCM 2026

À medida que a Cannabis medicinal avança no Brasil, cresce também a pressão por padrões mais rigorosos de controle, qualidade e segurança.

É nesse ponto que o Conselho Federal de Química (CFQ) quer se posicionar: como um agente técnico da consolidação da cadeia produtiva, defendendo que o setor só ganhará robustez quando estiver ancorado em ciência, padronização analítica e rastreabilidade.

A discussão deve ganhar destaque no módulo QuimFarma do Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM) 2026, que acontece entre 21 e 23 de maio, em São Paulo, e tem foco justamente em regulamentação, qualidade de produto, inovação tecnológica e desenvolvimento científico e industrial.

Segundo Ubiracir Lima, representante do CFQ, essa atuação já vem sendo construída de forma organizada. “O Conselho Federal de Química, por meio do Comitê de Apoio à Cadeia Produtiva de Insumos Químicos (CAIQ), tem atuado de forma estruturada no fortalecimento do setor de Cannabis medicinal no Brasil, com foco na consolidação de bases técnico-científicas que assegurem qualidade, segurança e rastreabilidade ao longo de toda a cadeia produtiva”, afirma.

Química como base da cadeia

Para o CFQ, a discussão sobre Cannabis medicinal não pode se limitar ao cultivo ou à prescrição. A aposta é em uma abordagem mais estrutural, em que a Química funciona como elo entre ciência, indústria e regulação.

“Essa atuação busca integrar ciência, indústria e regulação, contribuindo inclusive para a formulação de políticas públicas sustentadas por evidências e alinhadas às melhores práticas científicas”, diz Ubiracir.

Na avaliação dele, é justamente a ciência química que permite transformar a Cannabis em um produto tecnicamente controlado: “a química assume papel central na caracterização de substâncias presentes em insumos, na padronização de extratos e no desenvolvimento de metodologias analíticas que garantam a consistência terapêutica dos produtos.”

Em outras palavras, a defesa do Conselho é que não há consolidação possível do setor sem parâmetros objetivos para medir composição, pureza, estabilidade e previsibilidade clínica.

O que se perde quando a Química fica fora do debate

O argumento do CFQ é direto: negligenciar a Química nesse processo significa fragilizar toda a cadeia.

Ubiracir resume isso de forma contundente ao afirmar que “a centralidade da Química no debate sobre Cannabis medicinal é estratégica porque é ela que estabelece a relação causal entre composição molecular e efeito terapêutico, permitindo sair de uma abordagem empírica para um modelo baseado em evidência”.

Ele destaca que, sem essa base, o setor corre riscos sérios: “a ausência dessa abordagem química pode levar à variabilidade de produtos, inconsistência clínica, riscos sanitários e fragilidade regulatória, comprometendo a credibilidade do setor e dificultando sua inserção em um ambiente regulado e competitivo.”

A fala ganha peso em um momento em que o Brasil acaba de reestruturar parte do marco regulatório da Cannabis medicinal, com regras para cultivo, pesquisa, associações de pacientes e atualização das normas de fabricação e importação.

Qualidade, impurezas e risco sanitário

Quando o assunto é segurança sanitária, o CFQ sustenta que não basta verificar apenas a presença de CBD (canabidiol) ou THC (tetrahidrocanabinol). Para o Conselho, um produto confiável depende de um conjunto bem mais amplo de critérios analíticos.

“A quantificação precisa dos canabinoides principais (CBD, Δ⁹-THC e correlatos) para garantir dose e a previsibilidade clínica desejada pelo médico prescritos ao desenhar a posologia. Enquanto o perfil de impurezas, incluindo solventes residuais, pesticidas, metais pesados e micotoxinas, é crítico para a avaliação da segurança toxicológica”, afirma Ubiracir.

Ele chama atenção ainda para outro ponto que costuma receber menos visibilidade no debate público: estabilidade química e degradação ao longo do prazo de validade.

‘O monitoramento de produtos de degradação ao longo do prazo de validade, bem como a avaliação de estabilidade química, asseguram que o produto mantenha suas características dentro das especificações estabelecidas, evitando perda de eficácia ou formação de compostos potencialmente nocivos.”

Para o CFQ, esse controle é decisivo para reduzir variabilidade clínica, eventos adversos e insegurança regulatória.

Rastreabilidade molecular

A rastreabilidade é outro eixo central da agenda que o Conselho quer levar ao congresso. Na visão de Ubiracir, a Química permite acompanhar a identidade do produto desde o material vegetal até a formulação final.

“A Química desempenha papel imprescindível na rastreabilidade da cadeia produtiva da Cannabis ao permitir a identificação inequívoca da origem e da integridade dos insumos e produtos por meio de suas assinaturas moleculares.”

Segundo ele, técnicas como LC-MS/MS, GC-MS e abordagens de cannabinômica permitem construir perfis fitoquímicos capazes de diferenciar cultivares, correlacionar lotes e detectar desvios de qualidade.

“Essa rastreabilidade química viabiliza o controle de autenticidade, a detecção de desvios de qualidade e a verificação de consistência entre lotes, elementos essenciais para a gestão do risco sanitário conforme preconizado pela Anvisa.”

O raciocínio dialoga com o movimento mais recente da agência reguladora, que vem ampliando as exigências sobre controle sanitário, fabricação e monitoramento de toda a cadeia.

Inovação não é empirismo

Na leitura do CFQ, a química também precisa ser vista como motor de inovação no setor. Ubiracir afirma que o desenvolvimento de novos extratos, formulações e tecnologias depende menos de tentativa e erro e mais de fundamentos científicos bem estabelecidos.

“A ciência Química é o vetor central de inovação no setor de Cannabis porque é nela que se estabelecem as relações entre estrutura molecular, propriedades físico-químicas e atividade biológica, que orientam o desenvolvimento de extratos, formulações e tecnologias.”

Ele reforça que esse avanço passa pela compreensão de processos como descarboxilação, solubilidade, purificação e biodisponibilidade: “nesse contexto, a inovação não é empírica: ela decorre da aplicação sistemática de fundamentos químicos aliados a ferramentas analíticas e modelagem.”

Para o Conselho, esse é o tipo de suporte técnico que pode dar mais precisão às decisões tomadas por áreas como farmacologia, agronomia e engenharia.

O novo marco regulatório no centro da discussão

A participação do CFQ no Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal 2026 acontece em um cenário regulatório particularmente sensível.

Em janeiro, a Anvisa aprovou um conjunto de normas que passou a disciplinar o cultivo de Cannabis sativa L. com teor de THC de até 0,3% para fins medicinais e farmacêuticos, além de regras específicas para pesquisa e de um ambiente regulatório experimental para testagem controlada de atividades relacionadas à Cannabis para fins medicinais.

É justamente nesse contexto que o módulo QuimFarma ganha relevância. A programação do CBCM descreve o espaço como um ambiente voltado ao debate sobre regulamentação, qualidade do produto, inovação tecnológica e novos rumos do setor no Brasil.

Para Ubiracir, o objetivo do CFQ é contribuir para essa etapa com uma leitura mais refinada da planta e de seus diferentes perfis químicos: “o foco atual está no desenvolvimento de materiais técnicos voltados à caracterização química de diferentes quimiotipos, com ênfase na distinção objetiva do cânhamo em relação a outras variedades da planta”, explica.

Ele acrescenta que esses estudos buscam demonstrar que “o cânhamo não é apenas uma variação quantitativa de THC, mas um sistema metabólico distinto, com assinatura química própria”.

Da norma ao estande

Além dos debates no congresso, o CFQ também terá presença física na Cannabis Fair 2026, realizada em paralelo ao CBCM, no Transamérica Expo Center, em São Paulo.

A feira se apresenta como um encontro da cadeia ampliada da Cannabis, reunindo expositores de áreas como medicina, tecnologia, cultivo, extração, cosméticos, logística e serviços.

Segundo Ubiracir, a proposta do estande é traduzir parte desse debate técnico em demonstrações práticas. “Este ano pretendemos realizar, no estande do CFQ, pequenos experimentos envolvendo técnicas simples de extração e controle da qualidade de insumos vegetais”, afirma o químico.

A ideia é aproximar o público de procedimentos que, embora pareçam laboratoriais e distantes da rotina do setor, são justamente os que sustentam a padronização e a segurança do produto final.

No centro dessa agenda está a convicção de que a consolidação da Cannabis medicinal no Brasil não depende apenas de autorização regulatória ou expansão de mercado.

Depende, sobretudo, de transformar a planta em um insumo padronizado, seguro, rastreável e tecnicamente controlado — e, nessa disputa por credibilidade, a Química quer ocupar um lugar de protagonismo.

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Published On: Abril 9th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /