Estudo mostra que usuários frequentes de Cannabis apresentaram menos casos de ALD em análise de prontuários médicos
Um estudo recém-publicado na Liver International sugere que o uso frequente de Cannabis pode estar associado a um menor risco de desenvolvimento de doença hepática associada ao álcool (ALD, na sigla em inglês).
Conduzida por pesquisadores de centros médicos nos Estados Unidos, a análise retrospectiva envolveu centenas de milhares de registros clínicos de adultos com transtorno por uso de álcool (AUD).
Entre esses pacientes, aqueles que também apresentavam diagnóstico de uso problemático de Cannabis demonstraram uma incidência significativamente menor de doença hepática associada ao álcool (ALD) durante o período de acompanhamento de três anos.
Como o estudo foi conduzido
A pesquisa se baseou em dados da rede TriNetX, uma plataforma norte-americana que agrega milhões de prontuários eletrônicos de pacientes. Os autores selecionaram, nesse universo, apenas indivíduos com diagnóstico clínico de AUD entre os anos de 2010 e 2022.
A partir disso, os participantes foram divididos em três grupos de exposição: os que possuíam diagnóstico codificado de Cannabis use disorder (CUD), considerado marcador de uso frequente e continuado; os que tinham registros de uso de Cannabis, mas sem caracterização de dependência; e, por fim, os que não apresentavam qualquer histórico de uso documentado da substância.
Para garantir que a comparação entre os grupos fosse justa e confiável, os pesquisadores utilizaram um método estatístico que ajuda a equilibrar as diferenças entre os participantes — como idade, sexo, outras doenças já existentes e condições de vida. Esse cuidado permite que os resultados sejam mais sólidos, mesmo tratando-se de um estudo com base em prontuários médicos.
Com isso, todos os indivíduos foram acompanhados por até três anos, e os cientistas observaram, nesse período, três possíveis desfechos de saúde: o desenvolvimento de doença hepática ligada ao álcool (ALD), a piora do quadro com descompensação do fígado e, por fim, o risco de morte por qualquer causa.
O que os dados revelaram
Os resultados mostraram que os indivíduos com CUD apresentaram um risco 40% menor de desenvolver ALD em comparação aos não-usuários. Também foi observada uma redução significativa no risco de descompensação hepática e na mortalidade geral nesse mesmo grupo.
Já entre os usuários não frequentes de Cannabis — ou seja, aqueles que utilizavam a substância mas não apresentavam dependência —, a associação com menor risco foi observada apenas para ALD, e de forma menos expressiva.
Tais achados reforçam uma tendência observada em estudos anteriores: a de que o uso regular de Cannabis, sobretudo em perfis clínicos específicos, pode interferir positivamente em processos inflamatórios e fibrogênicos relacionados a doenças hepáticas.
Mesmo com resultados promissores, os próprios autores do estudo alertam que é preciso cautela na hora de interpretar os dados. Como se trata de uma pesquisa baseada em observação de prontuários, e não de um experimento controlado, não é possível afirmar com certeza que a Cannabis foi a causa direta da redução dos riscos encontrados.
O que pode explicar esse efeito?
A principal explicação biológica considerada pelos pesquisadores envolve o sistema endocanabinoide — um conjunto de receptores e moléculas que atuam como reguladores de processos importantes do corpo, como inflamação, metabolismo de gorduras e regeneração celular.
No fígado, quando certos receptores (chamados CB1) são ativados em excesso, podem contribuir para inflamações e acúmulo de gordura. Já outro tipo de receptor, o CB2, parece ter o efeito oposto: ajuda a reduzir inflamações e a prevenir a formação de fibrose.
Estudos com animais já mostraram que substâncias presentes na Cannabis, como o canabidiol (CBD), conseguem diminuir sinais de inflamação e estresse no fígado. Apesar disso, os cientistas ainda não sabem exatamente como esses efeitos acontecem.
Além disso, o estudo atual não detalha qual tipo de Cannabis os pacientes usaram, nem em que dose, forma de consumo ou proporções de THC (tetrahidrocanabinol) e CBD — fatores que podem influenciar bastante os resultados.
Mesmo assim, os autores consideram que os dados ajudam a abrir caminho para pesquisas mais aprofundadas com métodos experimentais mais controlados.
Limitações e perspectivas futuras
Como em todo estudo baseado em registros clínicos, os dados estão sujeitos a erros de classificação e omissões nos prontuários. A definição dos grupos de exposição dependeu de códigos diagnósticos, que podem não refletir com exatidão os padrões reais de uso.
Além disso, não se pode descartar a influência de variáveis não controladas que possam ter interferido nos resultados, como diferenças não medidas nos hábitos alimentares, uso de outras substâncias, acesso a cuidados médicos ou nível socioeconômico.
Apesar dessas limitações, os autores argumentam que a consistência dos achados entre diferentes desfechos clínicos e a magnitude do efeito observado sustentam a plausibilidade da associação.
O que isso significa na prática?
Embora os resultados sejam promissores do ponto de vista científico, eles não devem ser interpretados como recomendação para uso de Cannabis com fins terapêuticos em pacientes com histórico de abuso de álcool.
A pesquisa traz uma associação estatística, não uma comprovação causal, e os efeitos adversos da Cannabis, especialmente do uso recreativo em altas doses, seguem sendo objeto de ampla discussão na literatura médica.
No entanto, o estudo amplia o horizonte de investigação sobre as aplicações terapêuticas da Cannabis e reafirma a necessidade de compreender melhor como seus compostos interagem com o organismo em contextos clínicos complexos.
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