Bases científicas, evidências clínicas e perspectivas do tratamento
O que é o TEA?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por desafios em áreas como comunicação, interação social, comportamento e interesses restritos e repetitivos.
O espectro é amplo e abrange desde indivíduos com maior autonomia até aqueles com maiores necessidades de suporte, sendo que os sintomas costumam surgir na primeira infância e persistir ao longo da vida.
O uso da Cannabis medicinal como terapia complementar no manejo do TEA tem despertado crescente interesse na comunidade científica e médica.
Embora o tema ainda gere debates, evidências acumuladas nas últimas décadas, aliadas à experiência clínica, vêm apontando para possíveis benefícios no controle de sintomas associados ao transtorno, como agressividade, distúrbios do sono, irritabilidade, hiperatividade e dificuldades de comunicação.
Estudo do HUB revela alta eficácia do CBD
Um exemplo recente desse avanço é uma pesquisa do Hospital Universitário de Brasília (HUB), divulgada em novembro de 2024.
O estudo acompanhou 20 crianças e adolescentes com autismo durante seis meses e revelou que aproximadamente 70% deles apresentaram melhora significativa em sintomas como irritabilidade, agitação, crises de agressividade e dificuldades de socialização após o uso do canabidiol (CBD).
Os resultados foram especialmente positivos em casos nos quais os tratamentos convencionais não tinham obtido êxito. Os pesquisadores destacaram ainda a redução da sobrecarga emocional relatada pelas famílias e a boa tolerabilidade do composto na maioria dos casos, com poucos efeitos adversos.
O estudo reforça o potencial terapêutico da Cannabis no alívio de sintomas e no impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes e suas famílias.
Para compreender melhor os fundamentos científicos e os aspectos clínicos dessa abordagem, ouvimos Marianna Laíze dos Santos (CRM/RJ: 52.122807-2), médica pesquisadora do sistema endocanabinoide e com atuação direta no acompanhamento de pacientes com TEA.

Dra. Marianna Laíze dos Santos, médica especialiasta em Transtorno do Espectro Autista e estudiosa do sistema endocanabinoide.
O papel do sistema endocanabinoide no TEA
Segundo a médica, há uma lacuna significativa na formação tradicional dos profissionais de saúde sobre o tema:
“Hoje a maior parte dos currículos das escolas médicas no Brasil não inclui o sistema endocanabinoide, nem nas disciplinas básicas como fisiologia, biologia molecular e neurofisiologia, nem nas clínicas, como neuropediatria, psiquiatria ou imunologia.”
Essa ausência contribui para uma defasagem no entendimento de um sistema que já é amplamente estudado pela ciência e que tem papel regulador em processos como neuroinflamação, plasticidade sináptica e homeostase.
Diversas pesquisas têm demonstrado correlações entre a atividade do sistema endocanabinoide e o autismo. Um dos achados mais consistentes é a redução dos níveis de anandamida, um endocanabinoide com propriedades moduladoras, em crianças autistas.
“Crianças autistas têm uma menor quantidade de anandamida no corpo. Isso sugere uma possível correlação da sinalização canabinoide no autista”, explica a especialista.
Evidências clínicas e formulações empregadas
Os estudos conduzidos em Israel, especialmente pelo grupo do professor Adi Aran, são referência mundial e demonstraram que os sintomas mais responsivos ao tratamento com canabinoides incluem a agressividade, distúrbios do sono e comportamento autolesivo.
“As melhores respostas foram no quesito agressividade”, aponta Marianna. Além disso, benefícios foram observados em áreas menos responsivas a tratamentos convencionais, como linguagem, comunicação e interesses sociais restritos.
A médica destaca que os efeitos da Cannabis vão além do impacto direto nos sintomas:
“Temos observado incremento na linguagem verbal, melhora na escala de responsividade social e redução do estresse parental. Isso mostra o impacto positivo indireto no ambiente familiar.”
Indicações e práticas clínicas
No que se refere ao perfil dos pacientes, Marianna afirma:
“Não vejo um perfil para o qual a Cannabis seja absolutamente contraindicada no TEA. O potencial anti-inflamatório e de modulação da conectividade glial a torna uma alternativa relevante.”
Contraindicações absolutas são raras, limitando-se a doenças hepáticas severas ou distúrbios graves no metabolismo de fármacos.
Sobre formulações, a prática clínica e os estudos apontam maior eficácia com extratos full spectrum, ricos em CBD, que preservam o efeito entourage dos fitocanabinoides e terpenos. No entanto, o uso do THC (Tetrahidrocanabinol) é feito com cautela:
“Em boa parte das crianças inicio com extratos ricos em CBD, com doses baixas de THC, ajustando caso a caso.”
Segurança, efeitos adversos e perspectivas
Em relação aos efeitos colaterais, o CBD apresenta um perfil mais seguro, com destaque para a interação com enzimas hepáticas (CYP450), o que pode alterar o metabolismo de outros medicamentos.
O THC, por sua vez, pode causar irritabilidade, taquicardia, hipotensão e alterações perceptivas, especialmente em doses mais elevadas.
Há ainda relatos raros de efeitos paradoxais com o CBD, como pró-convulsões em indivíduos suscetíveis (estimados em cerca de 5% dos casos).
“O acompanhamento rigoroso e a personalização das doses são fundamentais para garantir segurança e eficácia”, reforça Marianna.
Perspectivas e avanços no cuidado do TEA
Ainda que mais pesquisas de grande escala e com metodologias robustas sejam necessárias, os dados clínicos acumulados e a experiência prática apontam a Cannabis medicinal como uma ferramenta promissora no manejo dos sintomas do TEA.
No Brasil, seu uso ainda é mais frequente em casos refratários, enquanto em países como Israel os canabinoides já fazem parte da primeira linha terapêutica.
O avanço das evidências científicas e o relato positivo de famílias e profissionais de saúde indicam um cenário de transformação no cuidado do TEA.
Sendo assim, a atualização de protocolos clínicos e políticas públicas poderá ampliar o acesso seguro e responsável a essa abordagem terapêutica.
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O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).
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