Pesquisa com mais de 5 mil pessoas identificou relatos de melhora dos sintomas com o uso de Cannabis, principalmente entre pessoas com anorexia nervosa

Uma pesquisa publicada no início de setembro no Journal of Eating Disorders encontrou sinais de um possível potencial terapêutico da Cannabis para alguns transtornos alimentares, especialmente aqueles marcados por restrição alimentar, aversão à comida e dificuldade para se alimentar.

Entre 5.383 pessoas que relataram diagnóstico de transtorno alimentar ou comportamento alimentar desordenado, 3.018 (56,1%) haviam utilizado Cannabis nos 12 meses anteriores e, entre elas, uma parcela expressiva relatou melhora dos sintomas.

Os resultados foram particularmente relevantes para pessoas com anorexia nervosa (AN) e transtorno alimentar restritivo/evitativo (ARFID).

Segundo os participantes, a Cannabis estaria associada à redução da ansiedade relacionada à alimentação, diminuição da náusea e maior capacidade de comer. Em contrapartida, pessoas com transtorno de compulsão alimentar (BED) relataram com mais frequência piora dos sintomas.

Os autores ressaltam que os resultados não comprovam eficácia terapêutica, mas indicam uma área que merece investigação clínica.

Maioria dos participantes relataram uso de Cannabis

Os pesquisadores iniciaram investigando o uso de medicamentos prescritos e não prescritos por adultos que declararam ter um transtorno alimentar diagnosticado ou apresentar comportamento alimentar desordenado que lhes causava sofrimento.

Entre os 5.383 participantes, a Cannabis foi a terceira substância mais utilizada, atrás apenas de cafeína e álcool.

Dos 3.018 que haviam utilizado Cannabis recentemente, 42,1% disseram fazer uso diário e 24,3% relataram consumir a planta várias vezes ao dia. A flor foi o produto mais utilizado, seguida por comestíveis, vaporizadores e óleo de Cannabis.

A pesquisa também comparou os relatos de pessoas que utilizavam Cannabis diariamente ou de forma ocasional com aqueles que não faziam uso da substância.

Transtornos com os melhores sinais de benefício

Foi entre os transtornos caracterizados por restrição alimentar que os pesquisadores observaram os relatos mais expressivos de benefício.

Pessoas com anorexia nervosa e ARFID relataram que a Cannabis poderia facilitar a alimentação ao reduzir a ansiedade diante da comida, diminuir a náusea e aumentar a capacidade de comer.
O efeito percebido, portanto, não estaria necessariamente relacionado apenas ao aumento do apetite, mas também a sintomas que podem dificultar a ingestão alimentar.

Esse resultado chama atenção porque os transtornos alimentares possuem opções terapêuticas ainda limitadas, segundo os próprios autores.

Nesse contexto, a possibilidade de os canabinoides atuarem sobre sintomas que dificultam a alimentação abre uma frente de investigação que pode ser relevante para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas.

Os dados, porém, ainda não permitem afirmar que a Cannabis seja um tratamento eficaz para anorexia ou ARFID. 

Nem todos os transtornos se beneficiaram

O estudo também encontrou uma diferença importante entre os diagnósticos. Enquanto os participantes com anorexia nervosa e ARFID relataram melhora dos sintomas, pessoas com transtorno de compulsão alimentar não apresentaram o mesmo padrão.

Nesse grupo, a Cannabis foi frequentemente associada à piora dos sintomas, possivelmente por favorecer episódios de ingestão excessiva.

Essa diferença reforça que o possível uso terapêutico da Cannabis em transtornos alimentares não deve ser analisado como uma abordagem única para todos os diagnósticos. Os mecanismos envolvidos, os sintomas predominantes e os efeitos dos diferentes canabinoides precisam ser investigados separadamente.

Para além dos transtornos

Os efeitos relatados pelos participantes não se restringiram aos sintomas dos transtornos alimentares. A maioria afirmou perceber uma melhora na saúde mental após o uso de Cannabis, independentemente do diagnóstico apresentado.

O achado chama atenção porque transtornos alimentares podem estar associados a outras condições de saúde mental, como ansiedade e depressão, o que levanta a possibilidade de que os efeitos percebidos pelos participantes ultrapassem a relação direta com a alimentação.

No entanto, os dados refletem a percepção dos próprios participantes e não permitem determinar se a Cannabis foi responsável pela melhora.
Ainda assim, o resultado reforça o interesse em investigar o potencial dos canabinoides sobre sintomas de saúde mental que podem coexistir com os transtornos alimentares.

Potencial terapêutico ainda precisa ser testado

Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de investigar o potencial terapêutico da Cannabis em transtornos alimentares, especialmente naqueles marcados pela restrição alimentar.

A anorexia nervosa e o ARFID aparecem, nesse contexto, como áreas de particular interesse para futuras pesquisas, diante dos relatos de melhora na alimentação, redução da ansiedade e diminuição da náusea entre participantes desses grupos.

A realização de estudos controlados é fundamental, uma vez que a pesquisa analisou experiências e percepções dos próprios participantes, e não os efeitos de um tratamento administrado e acompanhado em condições clínicas.

Por isso, os dados não permitem determinar quais canabinoides, doses, concentrações ou formas de administração estariam associados aos efeitos relatados. Ensaios clínicos poderão ajudar a esclarecer tanto a eficácia quanto a segurança dessas possíveis aplicações.

Embora não demonstre que a Cannabis possa tratar transtornos alimentares, o estudo amplia a discussão sobre onde os canabinoides podem ter potencial terapêutico ainda pouco explorado.

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