CEO da ExpoCannabis fala sobre empreendedorismo, regulação, liderança feminina e os desafios de consolidar o mercado da Cannabis no Brasil 

Antes de se tornar CEO, Larissa Uchida já estava envolvida com a Cannabis. O empreendedorismo, segundo ela, veio depois — quase como uma consequência da necessidade de transformar uma causa em algo capaz de se sustentar no tempo.

Larissa Uchida, CEO da ExpoCannabis.

Hoje, à frente da ExpoCannabis Brasil, Uchida acompanha de perto a transformação de um setor que deixou de discutir apenas acesso à saúde e passou a ocupar também as agendas de negócios, indústria, agronegócio, pesquisa e desenvolvimento econômico.

Essa mudança de perspectiva está no centro da edição de 2026 da feira, que traz o conceito “Para Além da Planta” e propõe ampliar a discussão sobre as diferentes possibilidades da Cannabis e do cânhamo.

É a partir desse cenário, em que a Cannabis passa a ocupar um espaço cada vez mais amplo na economia e na sociedade, que Larissa fala sobre sua trajetória, os desafios de empreender em um setor ainda marcado por estigmas, a presença feminina nesse mercado e o que ainda precisa avançar para que o Brasil transforme seu potencial em uma indústria estruturada. 

Cannabis ou empreendedorismo: o que veio primeiro?

Larissa Uchida — Cannabis, com certeza. O empreendedorismo veio depois, quase como consequência. Eu não entrei nesse mercado pensando “vou abrir uma empresa”. Entrei porque acreditava em uma causa, e o negócio foi a forma que encontrei de fazer essa causa caminhar de pé no chão.

Você entrou nesse mercado antes de ele ser uma oportunidade tão evidente. O que enxergou naquela época que pouca gente enxergava?

Larissa Uchida — Acho que enxerguei que isso não ficaria marginal para sempre. Enquanto muita gente via apenas o estigma, eu via uma questão de tempo: a ciência avançando, outros países mudando suas legislações. Quando você entende que o mundo já estava se movendo nessa direção, fica claro que o Brasil também precisaria acompanhar — e que alguém teria de ajudar a construir esse caminho aqui dentro.

Em que momento você percebeu que a Cannabis poderia virar um negócio — e não apenas uma causa?

Larissa Uchida — Foi quando percebi que uma causa sem sustentação financeira não se mantém no tempo. No momento em que entendi que era possível estruturar isso como um negócio sério, com CNPJ, regras e profissionalismo, a causa ganhou fôlego para durar.

Você já disse que, antes de empreender, estava envolvida com ativismo. O que ainda existe da ativista na CEO?

Larissa Uchida — Muita coisa. Na verdade, quase tudo. A ativista é quem me lembra todos os dias por que faço isso. Ela é a bússola. A CEO é quem faz esse propósito virar operação, virar evento e um impacto que pode ser medido em números. Mas eu não separo as duas. A cada decisão de negócio, quem senta à mesa é a mesma pessoa que enxergava isso como causa lá atrás.

Qual foi o maior preconceito que você precisou enfrentar por trabalhar com Cannabis?

Larissa Uchida — Acredito que tenha sido quando comecei a lidar com fornecedores antes da primeira edição da ExpoCannabis Brasil. Ouvi muitas piadas de mau gosto, comentários pejorativos. Era necessário mostrar seriedade em cada negociação e deixar claro que se tratava de um evento como qualquer outro, independentemente do tema com o qual estávamos trabalhando.

Sobre o início da ExpoCannabis, quando você pensou: “isso ficou muito maior do que eu imaginava”?

Larissa Uchida — Já na primeira edição, no momento em que os participantes começaram a entrar. Lembro de olhar para os corredores e ver aquilo lotado de gente. Eu andava pelo pavilhão e as pessoas vinham me parabenizar e agradecer por aquele espaço existir. A energia era muito forte. Foi naquele instante que caiu a ficha: eu não estava apenas organizando um evento. Estava conseguindo transmitir um propósito para muita gente ao mesmo tempo.

Qual é hoje o maior entrave para o crescimento do mercado brasileiro de Cannabis?

Larissa Uchida — Eu diria que é a falta de segurança jurídica de verdade. Enquanto não tivermos uma legislação que garanta o direito de trabalhar com Cannabis, o mercado nunca terá o apetite de investimento que poderia ter. O pacote de RDCs organiza o setor, isso é inegável. Mas RDC é uma norma da Anvisa, não uma lei. E aquilo que a Anvisa regula também pode ser alterado pela própria agência. Já vivemos isso na pele, quando saiu a proibição de importar flor de Cannabis e várias empresas foram afetadas de um dia para o outro. Enquanto o setor continuar sustentado principalmente por normas infralegais, que podem ser revistas, ele continuará crescendo com o pé no freio.

E qual é a oportunidade que o Brasil ainda está demorando para enxergar?

 

Larissa Uchida — O agronegócio. O Brasil tem uma vocação agrícola gigantesca e ainda trata a Cannabis principalmente como uma discussão de farmácia, quando ela também é uma discussão de lavoura. Estamos falando de cânhamo para a indústria têxtil, construção civil, alimentação e diferentes cadeias produtivas. Temos clima, terra, tecnologia de cultivo e know-how agrícola para sermos protagonistas mundiais nisso — e ainda estamos discutindo o básico.

Quando você olha para mercados como Estados Unidos, Canadá e Alemanha, onde o Brasil está realmente atrasado? E onde estamos à frente?

Larissa Uchida — Estamos atrasados na estrutura regulatória e no tempo de maturação do mercado. Esses países têm anos de vantagem em regras claras, disponibilidade de capital e variedade de produtos industrializados. Mas acho que estamos à frente em outros aspectos: no potencial produtivo, na diversidade de biomas e talvez até na maneira como o debate brasileiro já nasce conectado a questões sociais, como inclusão de pacientes, geração de renda e sustentabilidade.

A Cannabis está deixando de ser apenas uma questão de saúde para se tornar também uma questão de indústria, agronegócio e economia. Isso muda o jogo?

Larissa Uchida — Muda completamente. Enquanto é apenas uma pauta de saúde, os principais interlocutores são médicos, pacientes e reguladores.  Quando passa a ser também uma discussão de indústria e agronegócio, entram na mesa investidores, produtores rurais e formuladores de política econômica. O jogo muda porque o tamanho da mesa muda.

Existe uma cobrança diferente quando uma mulher ocupa uma posição de liderança em um mercado como esse?

Larissa Uchida — Existe, sim. A gente sente que precisa provar competência técnica com mais intensidade do que um homem provavelmente precisaria. É uma cobrança silenciosa. Não vem escrita em lugar nenhum, mas você percebe na maneira como algumas pessoas testam você antes de estarem dispostas a ouvir.

Você sente que as mulheres têm conquistado espaço de verdade no mercado da Cannabis ou ainda existe uma barreira invisível?

 

Larissa Uchida — As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. Existe um avanço real. Há cada vez mais mulheres em posições de liderança, fundando empresas e ocupando espaços de debate. Mas a barreira invisível ainda existe, principalmente nos ambientes de negociação e investimento, onde grande parte das decisões financeiras continua passando pelas mãos de homens.

Já precisou ser mais dura do que gostaria para ser ouvida em uma sala predominantemente masculina?

Larissa Uchida — Sim, algumas vezes. Houve momentos em que precisei endurecer o tom e repetir o mesmo ponto de forma mais firme apenas para ser levada a sério da maneira como já deveria ter sido desde a primeira fala. Não é a forma como prefiro liderar, mas às vezes é o que a situação exige.

O que ninguém vê por trás de uma mulher que aparece como CEO de um evento desse tamanho?

Larissa Uchida — Ninguém vê o volume de trabalho invisível, os prazos apertados, as preocupações e a pressão de manter tudo funcionando enquanto, por fora, parece que está tudo tranquilo.

 

Você também é mãe. O que muda na forma como pensa o trabalho quando existe uma filha esperando você voltar para casa?

Larissa Uchida — Muda o motivo. Hoje trabalho também pensando no tipo de mundo que quero que ela cresça vendo. Isso me deixou mais objetiva com o meu tempo. Não tenho mais espaço para gastar energia com o que não importa e quero, de fato, ajudar a deixar um mundo mais justo para a próxima geração.

Sua filha já sabe o que a mãe faz? O que você gostaria que ela entendesse sobre o seu trabalho quando crescer?

Larissa Uchida — Minha filha tem 8 anos e sempre soube com o que eu trabalho. Ela sabe que a Cannabis é o meu remédio, sabe qual é o meu propósito e por que faço o que faço. Eu nunca escondi isso dela, pelo contrário: sempre conversei sobre tudo. E é isso que gostaria que ficasse para ela: a normalização desse tema começa dentro de casa.

Se pudesse voltar ao início da sua trajetória, o que diria para aquela Larissa que estava começando?

Larissa Uchida — Diria para ela confiar mais rápido naquilo que já sabia. Que haverá gente duvidando, portas fechadas, mas que o tempo vai mostrar que a intuição dela estava certa. E diria para não ter pressa de provar tudo de uma vez, porque construir com consistência vale mais do que construir rápido.

E para uma mulher que quer empreender no mercado da Cannabis, mas ainda tem medo de entrar: o que você diria?

 

Larissa Uchida — Diria que o medo é normal e que ele não precisa desaparecer para você começar. Ele apenas não pode decidir por você. Esse mercado ainda está sendo construído, o que significa que ainda existe espaço para quem chegar com seriedade. Comece pequeno, comece estudando, mas comece.

Você acredita que vai chegar o dia em que a Cannabis não precisará mais ser defendida?

Larissa Uchida — Acredito. E acho que já estamos nesse caminho. Cada nova regulamentação, cada dado científico publicado e cada paciente que conquista acesso é um passo para que isso deixe de ser uma bandeira e se torne simplesmente normalidade.

Para além da planta

A normalização que Larissa projeta para o futuro passa, necessariamente, pela ampliação do debate no presente. Se durante anos a Cannabis esteve concentrada nas discussões sobre acesso medicinal e regulação, hoje o setor começa a ocupar outras mesas — da agricultura à indústria, da pesquisa aos investimentos, da sustentabilidade à geração de novos negócios.

É justamente essa mudança de perspectiva que orienta a quarta edição da ExpoCannabis Brasil. Em 2026, o evento retorna a São Paulo, propondo olhar para a Cannabis não apenas a partir de seus usos, mas de toda a cadeia que pode se desenvolver ao seu redor.

Ciência, saúde, agronegócio, indústria, cultura, políticas públicas e empreendedorismo passam a dividir o mesmo espaço em uma discussão que acompanha o amadurecimento do próprio mercado brasileiro.

Para Larissa, esse movimento também traduz uma mudança de escala. A ativista que começou defendendo uma causa hoje lidera um evento que coloca frente a frente pacientes, especialistas, pesquisadores, empresários, investidores e representantes de diferentes setores da economia.

Mais do que indicar o quanto esse mercado cresceu, essa diversidade ajuda a mostrar o quanto a conversa sobre Cannabis no Brasil também mudou — e quantas possibilidades ainda permanecem por construir.

Serviço

Evento: ExpoCannabis Brasil 2026.
Quando: 20, 21 e 22 de novembro de 2026.
Onde: São Paulo Expo.
Tema: “Para Além da Planta”.
Ingressos: disponíveis pela plataforma Sympla e pelos canais oficiais da ExpoCannabis Brasil.

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