Nota técnica da Embrapa e parceiros aponta limitações do parâmetro de 0,3% para o cultivo industrial; tema será debatido na ExpoCannabis Brasil 2026

O limite de 0,3% de THC (tetrahidrocanabinol), adotado internacionalmente como referência para a classificação do cânhamo industrial, está no centro de uma discussão sobre o futuro da produção nacional.

Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e de outras instituições defendem que o Brasil avalie critérios regulatórios compatíveis com suas condições climáticas e agrícolas, considerando as particularidades do cultivo em regiões tropicais.

Instituições divulgam Nota Técnica

Stand da Embrapa na ExpoCannabis 2025.

A discussão é apresentada na Nota Técnica nº 01/2026, elaborada no âmbito do projeto Hemptech Brasil, com participação de pesquisadores da Embrapa, do Instituto Ficus e da Associação Nacional do Cânhamo Industrial.

O documento analisa as implicações agronômicas, regulatórias e mercadológicas do limite de THC e propõe que o país considere parâmetros alternativos, como 0,5% ou 1%, para o cânhamo destinado a aplicações industriais.

Atualmente, o Brasil utiliza o limite de 0,3% de THC na regulamentação do cultivo de Cannabis para fins medicinais e farmacêuticos.

Entretanto, ainda não há uma regulamentação específica para o cultivo de cânhamo voltado à produção industrial, que pode abastecer setores como agronegócio, construção civil, indústria têxtil, alimentos e fabricação de bioplásticos.

Condições tropicais colocam limite em discussão

Um dos principais pontos levantados pelos pesquisadores é a influência do ambiente sobre o desenvolvimento da Cannabis.

Muitas das variedades de cânhamo utilizadas comercialmente foram desenvolvidas em países de clima temperado, onde os dias de verão são mais longos e as variações sazonais de luminosidade são diferentes das encontradas no Brasil.

Em regiões tropicais, a menor variação anual do fotoperíodo pode antecipar a floração dessas plantas, comprometendo o desenvolvimento vegetativo, o porte e, consequentemente, a produtividade.

Temperatura, radiação solar e disponibilidade hídrica também interferem nas características da cultura, inclusive na concentração de THC.

Isso significa que mesmo o uso de sementes certificadas, provenientes de variedades selecionadas para apresentar baixos teores do composto, não elimina a possibilidade de alterações relacionadas às condições ambientais.

Para Larissa Uchida, CEO da CannExp, empresa responsável pela ExpoCannabis Brasil, a discussão ultrapassa uma questão técnica e interfere diretamente na viabilidade econômica do setor.

“Hoje, o limite de THC é muito mais do que um detalhe técnico. Ele decide quem consegue plantar, investir e criar novos produtos com segurança. O Brasil tem um clima, uma diversidade e uma realidade muito própria, e é natural que a gente discuta como essa regra funciona na prática”, afirma.

Larissa Uchida, CEO da ExpoCannabis.

Limite varia em diferentes regulamentações

A nota técnica também chama atenção para as diferenças entre os parâmetros adotados internacionalmente. Enquanto a União Europeia utiliza 0,3% como referência em sua política agrícola, países da América do Sul trabalham com limites distintos.

Uruguai e Argentina adotam percentuais inferiores a 1%, enquanto o Paraguai estabelece o parâmetro abaixo de 0,5%.

Na República Tcheca, o limite foi elevado para 1%. Já a África do Sul passou a aceitar concentrações de até 2%.

Agronegócio e indústria dependem de segurança regulatória

A discussão sobre o limite de THC está diretamente relacionada à capacidade de estruturar uma cadeia produtiva nacional.

O cânhamo industrial apresenta aplicações em diferentes segmentos, desde a produção de fibras e grãos até materiais para construção civil, tecidos, papel, alimentos, cosméticos e bioplásticos.

Na avaliação de Larissa Uchida, o agronegócio reúne condições para impulsionar o desenvolvimento desse mercado: “Vejo o agronegócio como porta de entrada. O Brasil já tem escala agrícola, pesquisa aplicada, como a Embrapa, e tradição em commodities. Isso permite incluir o cânhamo em sistemas de produção que já existem, como cultura de rotação e matéria-prima para fibra e grão”, explica.

A executiva destaca que o potencial econômico não está concentrado em um único produto, mas na integração entre diferentes etapas de processamento e transformação industrial.

A partir da produção agrícola, podem ser desenvolvidos materiais para construção civil, como o hempcrete (concreto de cânhamo), isolantes e painéis, além de tecidos, alimentos e insumos para a indústria de papel e bioplásticos.

“O ganho está na cadeia inteira, e não em um único produto. Quem planta gera demanda para quem processa, e quem processa gera demanda para a indústria que transforma”, afirma.

Brasil pode perder espaço para mercados internacionais

A ausência de regras específicas para o cânhamo industrial também pode comprometer a competitividade brasileira em um mercado que já avança em outros países.

Segundo Larissa, a falta de segurança regulatória mantém o país dependente da importação de matérias-primas e insumos que poderiam ser produzidos nacionalmente, além de limitar a geração de empregos e investimentos em pesquisa e processamento industrial.

“Corremos o risco de perder a chance de liderar. Sem regras claras, o Brasil segue importando fibra, sementes, óleo e insumos que poderia produzir. Hoje isso significa dependência externa, menos empregos no campo e na indústria, e investimento indo para outros países”, afirma.

A executiva também considera que as experiências internacionais devem servir como referência para a construção de um modelo brasileiro, sem a reprodução automática de parâmetros estabelecidos em outros contextos agrícolas.

“Esses países mostram que o limite de THC não precisa ser copiado de outros mercados. Cada um calibrou a regra à sua realidade agrícola e ao seu objetivo. A lição é que o Brasil deve construir um critério próprio, com base em ciência e na nossa realidade de cultivo”, avalia.

ExpoCannabis Brasil debaterá o tema

O debate sobre a regulamentação e as oportunidades econômicas do cânhamo estará entre os temas da quarta edição da ExpoCannabis Brasil, marcada para os dias 20, 21 e 22 de novembro, no São Paulo Expo, em São Paulo.

A programação terá destaque para o assunto no dia 21 de novembro, durante o Fórum Internacional, com duas sessões do projeto Hemptech, que reunirão a Embrapa e parceiros do setor produtivo.

A primeira será dedicada à ciência, ao mercado e à inovação na cadeia da Cannabis. A segunda abordará o cânhamo como uma possível commodity do futuro, considerando sua aptidão agrícola e os diferentes sistemas de produção.

No dia 22, a programação também contará com uma mesa sobre a Frente Parlamentar de Cannabis Medicinal, Cânhamo Industrial e o futuro da planta na política brasileira.

Outra palestra prevista é “Do feito lá fora ao feito no Brasil”, com foco em indústria, inovação e sustentabilidade.

A presença da Embrapa como apoiadora institucional da feira reforça a aproximação entre pesquisa científica, agronegócio e indústria nas discussões sobre o desenvolvimento da cadeia nacional.

Um mercado bilionário

O evento acontece em um momento de expansão do mercado brasileiro. Segundo a consultoria Kaya Mind, o mercado legal e correlato da Cannabis movimentou aproximadamente R$ 1,94 bilhão em 2025.

Estudos que consideram cenários de regulamentação mais ampla apontam potencial econômico de até R$ 51 bilhões anuais, estimativa que abrange o mercado da Cannabis de forma mais ampla e não se refere exclusivamente ao cânhamo industrial.

A discussão sobre o cultivo, portanto, envolve não apenas a definição de um limite de THC, mas as condições necessárias para que o Brasil desenvolva tecnologia, produção e capacidade industrial próprias.

A construção de regras compatíveis com a realidade nacional será determinante para estabelecer os caminhos de um setor que reúne possibilidades para a agricultura, a indústria e a economia brasileira.

Serviço

ExpoCannabis Brasil 2026
Data: 20, 21 e 22 de novembro de 2026
Local: São Paulo Expo — Rodovia dos Imigrantes, km 1,5, Água Funda, São Paulo (SP)
Ingressos disponíveis pela plataforma Sympla e pelos canais oficiais da ExpoCannabis Brasil

Inicie seu tratamento 

O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).

Mais de 30 patologias podem ser tratadas com a Cannabis. Quer saber mais e dar início ao tratamento?

Entre em contato com o nosso acolhimento e marque uma consulta.

https://informacann.com.br/acolhimento-pacientes-informacann

Published On: Novembro 5th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /