Chamada científica recebe trabalhos de diferentes áreas do conhecimento e busca ampliar a visibilidade da produção brasileira sobre Cannabis
A pesquisa brasileira sobre Cannabis vem ganhando espaço em diferentes áreas do conhecimento, acompanhando o avanço das discussões sobre uso medicinal, cultivo, indústria, regulação e desenvolvimento de novas tecnologias.
É nesse cenário que a ExpoCannabis Brasil 2026 realiza mais uma edição do Congresso Científico Dr. Elisaldo Carlini, que recebe inscrições de pesquisas para apresentação durante o evento.
A chamada busca reunir trabalhos relacionados à Cannabis produzidos por pesquisadores de diferentes áreas e instituições. Segundo Lorrany Teixeira, curadora e coordenadora científica da ExpoCannabis Brasil, a proposta é dar visibilidade a uma produção que já existe no país, mas que muitas vezes permanece dispersa entre universidades e grupos de pesquisa.
“Eu vejo este congresso como um retrato de um momento de amadurecimento da ciência brasileira sobre Cannabis”, afirma Lorrany.
Para ela, a pesquisa deixou de estar concentrada em alguns grupos e passou a ocupar diferentes universidades, regiões e áreas do conhecimento.
A ExpoCannabis Brasil 2026 acontece de 20 a 22 de novembro, no São Paulo Expo, em São Paulo.
Ciência além da área medicinal
A programação científica não pretende concentrar os trabalhos em uma única frente de pesquisa. A chamada contempla diferentes campos relacionados à Cannabis, refletindo a expansão do próprio objeto de estudo.
Entre as áreas citadas pela curadoria estão pesquisas clínicas e farmacológicas, química, agronomia, biotecnologia, saúde pública, ciências sociais, direito, economia, sustentabilidade e tecnologia.
“A gente não quer estabelecer uma hierarquia entre áreas. Pelo contrário: queremos mostrar que a complexidade da Cannabis exige diferentes olhares”, explica Lorrany.
A diversidade também aparece na própria relação entre os campos. Uma pesquisa pode começar na química e avançar para a farmacologia e a aplicação clínica, enquanto estudos sobre cultivo podem envolver simultaneamente agronomia, genética, tecnologia, legislação e economia.
Para a curadoria, um dos desafios do congresso é justamente criar conexões entre essas áreas, evitando que diferentes linhas de pesquisa permaneçam isoladas dentro de suas próprias disciplinas.
O que a curadoria busca
A chamada científica busca trabalhos que apresentem qualidade científica, relevância e contribuição efetiva para o campo da Cannabis.
Além desses critérios, existe uma preocupação em ampliar a participação de diferentes instituições e regiões. A intenção é evitar que a produção científica sobre Cannabis seja representada apenas pelos grandes centros de pesquisa. “Temos uma produção muito mais diversa acontecendo nas universidades brasileiras”, afirma Lorrany.
A curadoria também considera a qualidade metodológica, a clareza dos objetivos, a consistência dos resultados, a relevância da pergunta de pesquisa e a contribuição do trabalho para o campo.
A proposta é conciliar o rigor científico com uma programação capaz de representar a diversidade da pesquisa nacional.
Pesquisa brasileira está mais diversa
O perfil dos trabalhos recebidos nas últimas edições já demonstra essa transformação. Em 2024, foram submetidos 79 trabalhos. No ano seguinte, o número chegou a 98, com participação de pesquisadores ligados a mais de 40 universidades federais e estaduais.
Para Lorrany, mais do que o crescimento no número de submissões, chama atenção a diversidade dos temas pesquisados.
“Quando começamos a receber os trabalhos, fica muito evidente que a pesquisa brasileira sobre Cannabis já ultrapassou uma visão exclusivamente medicinal”, afirma.
Segundo ela, há uma produção crescente envolvendo química e produtos naturais, desenvolvimento de produtos, agronomia, genética, biotecnologia, saúde, ciências humanas e questões regulatórias e sociais.
O movimento acompanha um setor que também vem ampliando suas discussões para além do uso terapêutico.
Da pesquisa à aplicação
Entre as linhas de pesquisa que podem ganhar relevância nos próximos anos, Lorrany destaca a capacidade de transformar conhecimento básico em aplicações concretas.
Isso envolve tanto a compreensão da planta e de seus compostos quanto o desenvolvimento de produtos, terapias, tecnologias e políticas públicas baseadas em evidências.
A pesquisadora também aponta potencial em áreas como biodiversidade, química de produtos naturais, desenvolvimento de variedades, biotecnologia e produção nacional.
“O Brasil tem condições científicas e biológicas muito particulares, e precisamos aproveitar isso de maneira responsável”, afirma.
Lacunas ainda persistem
Apesar do crescimento da produção científica, a expansão do campo também evidencia desafios.
Entre as lacunas apontadas pela curadoria estão a caracterização química e biológica da planta, estudos clínicos robustos, farmacovigilância, desenvolvimento de produtos, padronização, cultivo e genética.
Outro ponto destacado é a necessidade de produzir evidências que considerem as características da população brasileira e as demandas específicas do país.
“Não podemos simplesmente importar evidências produzidas em outros países e considerar que elas respondem completamente à nossa realidade”, afirma Lorrany.
Para ela, também existe um desafio na comunicação entre a produção científica e a sociedade. Os resultados das pesquisas precisam chegar não apenas a outros pesquisadores, mas também a profissionais de saúde, pacientes, formuladores de políticas públicas e à população.
Ciência cresce, mas carece de estrutura
Na avaliação da curadoria, o Brasil já produz ciência de qualidade sobre Cannabis, mas ainda não na escala necessária para acompanhar a velocidade de transformação do setor.
O crescimento das pesquisas ocorre em paralelo a desafios relacionados à infraestrutura científica, financiamento e consolidação de redes de colaboração.
Por isso, o congresso pretende funcionar não apenas como espaço de apresentação de resultados, mas também como ambiente de aproximação entre pesquisadores e diferentes áreas do conhecimento.
“Vejo o congresso não apenas como um espaço para apresentar resultados, mas como uma ferramenta de fortalecimento do próprio ecossistema científico da Cannabis no Brasil”, afirma Lorrany.
Inscrições abertas
A chamada para trabalhos do Congresso Científico Dr. Elisaldo Carlini está aberta a estudantes, pesquisadores, docentes e profissionais de diferentes áreas. Os trabalhos selecionados serão apresentados durante a ExpoCannabis Brasil 2026.
As submissões podem ser realizadas até 31 de agosto, e os resultados da seleção estão previstos para 21 de setembro.
Para conferir as regras da chamada e enviar uma pesquisa, os interessados devem acessar o edital oficial do congresso.
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