Especialista em sistema endocanabinoide explica como o canabigerol atua no organismo, seu potencial terapêutico e por que vem ganhando espaço entre os fitocanabinoides mais promissores
Por muito tempo tratado como um composto secundário da Cannabis sativa, o canabigerol (CBG) vem conquistando um novo status dentro da medicina canabinoide.
É a partir dele, em sua forma ácida (CBGA), que a planta sintetiza os demais canabinoides mais conhecidos — como o CBD e o THC. Por isso, o CBG é chamado por especialistas de canabinoide mãe.
Para entender melhor como essa molécula atua no organismo e quais são suas principais indicações terapêuticas, conversamos com o Dr. Jimmy Fardin (Crm 31800-BA), médico ortopedista e especialista no sistema endocanabinoide.

Dr. Jimmy Fardin
CBG tem efeito psicoativo?
Essa é uma das dúvidas mais comuns entre pacientes que iniciam o tratamento com Cannabis medicinal.
Segundo o Dr. Jimmy Fardin, a resposta exige uma distinção importante entre os termos psicoativo, psicotrópico e psicodisléptico — frequentemente confundidos como sinônimos. “A resposta é sim, o CBG tem efeito psicoativo, mas não é psicodisléptico ou psicotomimético”, explica o médico.
Psicoatividade, segundo ele, refere-se a qualquer substância que atua no sistema nervoso central alterando temporariamente funções como humor, percepção ou comportamento — o que inclui até substâncias do dia a dia, como a cafeína.
O CBG também é psicotrópico, já que age em receptores serotoninérgicos e dopaminérgicos, podendo modular processos emocionais.
O que ele não é, segundo o especialista, é psicodisléptico — categoria que inclui substâncias capazes de distorcer a percepção da realidade, como LSD e psilocibina. “O CBG não é psicodisléptico. Não vai alterar ou perturbar ou distorcer a percepção da realidade no indivíduo”, afirma.
Como ele age no organismo?
De acordo com o Dr. Jimmy Fardin, o CBG se diferencia justamente pela forma como se liga aos receptores do sistema endocanabinoide.
Diferente do THC, que tem uma ligação forte com os receptores CB1 e CB2, o CBG atua como agonista parcial fraco nesses mesmos receptores — o que já indica um perfil de ação mais sutil.
Mas é em outras vias que o canabinoide mostra seu diferencial. “O CBG é o único canabinoide com ação alfa-2 adrenérgica, promovendo a vasodilatação”, destaca o médico.
Ele também apresenta forte ação antagonista no receptor de serotonina 5HT1A, o que lhe confere propriedades ansiolíticas, antidepressivas e neuroprotetoras.
Ademais, atua nos receptores TRPV1 e PPAR-gama, ligados a processos de antinflamação e analgesia.
Para o especialista, esse conjunto de interações explica por que o CBG vem sendo associado a benefícios em múltiplas frentes — da inflamação ao metabolismo, passando por questões circulatórias e neurológicas.
Quais sintomas ele ajuda a tratar?
Na prática clínica, o Dr. Jimmy Fardin observa boas respostas em quadros de dor crônica, distúrbios metabólicos, ansiedade, TDAH, síndrome do intestino irritável e como relaxante muscular.
“Qualquer afecção inflamatória poderá ter algum benefício com o uso do CBG”, afirma, ressaltando, no entanto, que “a dose é muito importante e a individualidade do tratamento deve sempre ser respeitada.”
O médico também chama atenção para um ponto de cuidado: em alguns pacientes, o CBG pode estimular a liberação de grelina, hormônio relacionado à sensação de fome. “Indivíduos que desejam um controle melhor da fome precisam de um cuidado maior ao usar o CBG”, alerta.
As demais contraindicações seguem o padrão dos outros canabinoides, incluindo gestação, lactação e alergia a componentes da Cannabis.
O futuro do CBG na medicina
Ao avaliar o futuro do canabinoide, o Dr. Jimmy Fardin é otimista. “Acredito que o CBG, que antes era considerado um canabinoide menor, já conseguiu ultrapassar esse rótulo”, afirma.
Para ele, o crescimento de produtos formulados com o composto e o avanço das pesquisas científicas reforçam seu potencial terapêutico.
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