Estudo da UFSC quer traçar o primeiro perfil nacional de pacientes veterinários em tratamento com fitocanabinoides e preencher lacuna científica sobre o uso a longo prazo

A médica-veterinária Lorena de Oliveira, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Medicina Veterinária Convencional e Integrativa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), busca associações de pacientes, médicos-veterinários e tutores de cães e gatos para participar de uma pesquisa sobre a segurança e os desfechos clínicos do uso prolongado de fitocanabinoides.

Foto: UFSC/Divulgação

O estudo é voltado a animais que realizam esse tipo de tratamento há pelo menos 12 meses e conta com orientação do Prof. Dr. Erik Amazonas de Almeida.

Intitulada “Demografia, segurança e desfecho clínico do uso terapêutico prolongado de Cannabis sativa L. em cães e gatos no Brasil”, a pesquisa está em fase de coleta de dados e busca associações de pacientes, médicos-veterinários e tutores de animais em tratamento com fitocanabinoides há pelo menos 12 meses.

A iniciativa busca produzir dados nacionais sobre o perfil dos animais que recebem esses tratamentos e compreender melhor sua segurança ao longo do tempo.

Uma lacuna que precisa ser preenchida

A pesquisa parte de uma lacuna na literatura científica: ainda são escassos os dados sobre o uso prolongado de fitocanabinoides em animais, especialmente aqueles que refletem a realidade brasileira.

Segundo Lorena, boa parte do conhecimento disponível vem de estudos realizados em outros países, com produtos e populações que nem sempre correspondem ao cenário nacional.

“Os pacientes veterinários brasileiros costumam fazer tratamento há muitos anos com produtos das associações de pacientes, que são diferentes de muitos produtos internacionais”, explica a pesquisadora. “Isso faz com que tenhamos ainda menos informações reais sobre o tratamento.”

Lorena de Oliveira

Essa diferença é relevante porque as associações de pacientes, com atuação importante no acesso a produtos à base de Cannabis no Brasil, produzem óleos que podem apresentar composições distintas das formulações utilizadas em estudos internacionais.

Investigar os tratamentos efetivamente utilizados por cães e gatos brasileiros, portanto, pode ajudar a ampliar o conhecimento científico sobre essa prática e suas particularidades.

O que já se sabe

De forma geral, estudos sobre produtos à base de Cannabis sativa em cães e gatos indicam que eles podem ser bem tolerados, embora a segurança dependa de fatores como a composição do produto, a dose e as características de cada animal.

As duas espécies também apresentam diferenças importantes no processamento dos canabinoides pelo organismo.

Gatos, por exemplo, podem ter menor biodisponibilidade oral e diferenças na metabolização hepática em comparação com cães, além de maior suscetibilidade a determinados efeitos adversos.

Outro aspecto investigado na literatura é a possibilidade de elevação discreta e transitória das enzimas hepáticas durante o uso prolongado de canabidiol (CBD).

Esse achado, porém, precisa ser interpretado de acordo com o contexto clínico e não significa, por si só, a ocorrência de lesão hepática relevante.

Apesar dos avanços, ainda faltam informações sobre tratamentos mantidos por períodos mais longos. “Ainda não existem estudos que avaliaram exames em animais que fazem tratamento há mais de um ano”, aponta Lorena.

A pesquisadora ressalta que a produção científica disponível também é limitada em relação ao nível de evidência necessário para compreender melhor esses tratamentos.

“Os estudos que existem mundialmente ainda são em quantidade escassa quando pensamos na qualidade de evidências necessárias para fornecer segurança e melhor compreensão para todo esse panorama”, conclui.

Cannabis na prática veterinária

Na rotina clínica, os fitocanabinoides são utilizados em diferentes contextos, incluindo casos de dor crônica ou neuropática, crises convulsivas, disfunção cognitiva, doenças dermatológicas e alérgicas — como a dermatite atópica —, doença inflamatória intestinal e alterações comportamentais, como ansiedade e hiperreatividade. Também há uso em cuidados paliativos oncológicos.

Saiba mais sobre as diferentes aplicações da Cannabis na medicina veterinária clicando aqui.

Apesar dessa diversidade de aplicações, Lorena observa que os produtos ainda são frequentemente considerados uma alternativa para quando outras abordagens não apresentam os resultados esperados.

“Infelizmente, ainda são muito utilizados como último recurso”, afirma. “Mas há uma busca crescente para que esses produtos sejam utilizados como primeiro recurso terapêutico, especialmente considerando o custo-benefício para o paciente.”

Entre as dúvidas dos médicos-veterinários estão quais indicações contam com respaldo científico, como ajustar as doses e escolher o quimiotipo mais adequado, além de questões relacionadas à prescrição e à segurança jurídica do profissional.

A produção de dados clínicos nacionais pode contribuir para aprofundar essas discussões, embora os resultados de um estudo observacional não sejam suficientes, isoladamente, para estabelecer a eficácia de um tratamento.

O que a pesquisa pretende investigar

O estudo tem dois eixos principais. O primeiro é epidemiológico e busca traçar um perfil nacional dos pacientes veterinários que utilizam fitocanabinoides.

Para isso, serão reunidas informações como espécie, raça, sexo, idade, região, indicação clínica, tipo de produto e dosagem prescrita.

A abrangência geográfica é um dos objetivos do recrutamento. “Queremos conseguir participantes de diferentes locais do Brasil, para que tenhamos uma noção mais real do uso nacional e para entender as diversidades geográficas e culturais envolvidas”, explica Lorena.

O segundo eixo é clínico e envolve a avaliação da segurança e dos desfechos do tratamento prolongado.

A análise inclui exames de sangue — como hemograma e avaliações das funções hepática e renal — realizados antes do início do tratamento e após pelo menos 12 meses de uso.

A pesquisa também pretende avaliar a resposta clínica geral, a presença e a intensidade dos sinais relacionados à condição de base, eventuais mudanças no uso de outros medicamentos após a introdução dos fitocanabinoides e a ocorrência de efeitos colaterais ao longo do tempo.

Para Lorena, os resultados poderão ajudar a preencher parte da lacuna de conhecimento sobre esses tratamentos e oferecer subsídios para a prática clínica.

“Como não temos dados suficientes mostrando os efeitos do uso prolongado, seja clinicamente ou em exames de sangue, os resultados dessa pesquisa poderão fornecer subsídios para melhorar condutas clínicas e oferecer mais segurança clínica e jurídica para o médico veterinário e o responsável legal que escolhe realizar esses tratamentos”, afirma a pesquisadora.

Como participar

A pesquisa busca três perfis de participantes:

  • Associações de pacientes que atendam animais, independentemente do número de pacientes veterinários acompanhados;
  • Médicos-veterinários que tenham pacientes em tratamento com fitocanabinoides há pelo menos 12 meses e que contem com acompanhamento por exames de sangue básicos;
  • Tutores de cães e gatos cujos animais estejam em tratamento com fitocanabinoides há pelo menos 12 meses e tenham acompanhamento por exames de sangue básicos.

A participação de profissionais que acompanham poucos animais também é importante para ampliar a base de dados.

“Os médicos veterinários que quiserem participar não precisam ter muitos pacientes — se quiserem contribuir com os dados de apenas um já irão auxiliar bastante para os resultados da pesquisa”, destaca Lorena.

A coleta de dados está prevista para seguir até a primeira semana de novembro de 2026. A divulgação dos resultados deve ocorrer no segundo trimestre de 2027, após a defesa da dissertação de mestrado.

Os interessados podem manifestar interesse por meio do formulário de participação. Após o preenchimento, a pesquisadora entrará em contato para orientar os próximos passos.

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Published On: Outubro 23rd, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /