Pesquisa acompanhou mil pacientes ao longo de uma década e registrou queda expressiva na intensidade da dor, na incapacidade funcional e no uso de outros medicamentos prescritos
A dor lombar crônica afeta mais de 619 milhões de pessoas no mundo e é a principal causa de incapacidade por anos vividos com limitação, segundo o Global Burden of Disease Study 2021.
Para a parcela significativa desses pacientes que não responde adequadamente aos tratamentos convencionais — incluindo fisioterapia, anti-inflamatórios e opioides — as alternativas disponíveis ainda são escassas.
Um estudo publicado em agosto de 2026 no European Spine Journal oferece, pela primeira vez, dados de acompanhamento de dez anos sobre o uso da Cannabis medicinal nesse quadro específico, e apresentou resultados relevantes.
O estudo
Conduzido por pesquisadores do Rabin Medical Center e da Universidade de Tel Aviv, em Israel, o trabalho acompanhou 1.000 pacientes consecutivos com dor lombar crônica confirmada por exame de imagem, todos em uso contínuo de opioides há pelo menos um ano e sem nenhuma exposição prévia à Cannabis.
O acompanhamento foi anual, de 2015 a 2024, seguindo as diretrizes STROBE para estudos observacionais. Dos 1.000 pacientes, 638 (63,8%) completaram os dez anos de seguimento.
O desfecho primário avaliado foi o consumo de opioides, medido em miligramas de equivalente de morfina por dia (MMEQ).
Os desfechos secundários incluíram intensidade da dor pela Escala Numérica de Avaliação (NRS, de 0 a 10), incapacidade funcional pelo Índice de Incapacidade de Oswestry (ODI), uso de outros medicamentos e eventos adversos.
Os pacientes receberam Cannabis medicinal sob supervisão médica, com produtos obtidos de produtores licenciados — flor seca para vaporização (62%) e óleos para uso oral ou sublingual (31%).
A dosagem seguiu uma abordagem de titulação gradual, com produtos predominantemente à base de THC iniciando em 2,5 a 5 mg, com ajuste progressivo ao longo de duas a quatro semanas conforme resposta clínica e tolerabilidade.

Foto Reprodução: Freepik
O que os dados mostram
Entre os 638 pacientes que completaram o acompanhamento, o consumo de opioides caiu de 62,8 mg/dia no início para 6,4 mg/dia ao final de dez anos — uma redução de 89,8%.
Ao décimo ano, 91,2% dos participantes atingiram a marca considerada clinicamente significativa de redução de pelo menos 50% no uso de opioides. Outros 6,6% chegaram à cessação completa.
A intensidade da dor seguiu trajetória semelhante. A pontuação média na escala NRS passou de 8,71 para 1,37 — queda de 84,2% — e 96,6% dos pacientes atingiram a redução mínima de 30% considerada clinicamente relevante. Ao final do período, 89,2% relatavam dor leve ou ausente.
A incapacidade funcional também melhorou, embora de forma mais gradual. O índice ODI caiu de 52,9% para 36,8% — redução de 16,1 pontos, superando o limiar mínimo de melhora clínica estabelecido para esse instrumento.
Os autores observaram que a melhora funcional foi temporalmente mais lenta do que a redução da dor, com ganhos mais expressivos entre os anos 7 e 10, o que sugere que a recuperação funcional exige tempo e recondicicionamento progressivo além do alívio da dor em si.
Redução geral de medicamentos
Um dos aspectos mais notáveis do estudo é a redução expressiva no uso de outros medicamentos prescritos ao longo do período.
Entre os pacientes que completaram o acompanhamento, o uso de tramadol e tapentadol caiu 84 pontos percentuais, benzodiazepínicos 73,5 pp, antidepressivos do tipo ISRS 71,9 pp e gabapentinoides 30,7 pp.
Essa redução foi clinicamente conduzida — não havia protocolo de retirada obrigatória — e ocorreu principalmente nos dois primeiros anos de tratamento.
Os autores apontam que esse padrão pode refletir a capacidade do sistema endocanabinoide de modular simultaneamente dor, humor, ansiedade e sono, reduzindo a necessidade de medicamentos separados para cada um desses domínios.

Segurança ao longo do tempo
Os eventos adversos ocorreram em 11,4% dos pacientes. Os mais comuns foram boca seca (5,2%), sintomas gastrointestinais como náusea e alterações de apetite (3,6%) e olhos vermelhos (1,6%). Eventos psiquiátricos graves ocorreram em apenas 0,02% das visitas.
Nenhum paciente foi hospitalizado ou interrompeu o tratamento por eventos adversos intoleráveis após o segundo ano.
Os autores destacam que a ausência de escalada de dose ao longo de dez anos — o consumo médio se estabilizou em torno de 40,9 g/mês desde o segundo ano — vai contra o desenvolvimento de tolerância farmacológica, um dos principais receios no uso prolongado de qualquer substância com potencial psicoativo.
Como interpretar esses resultados
Os próprios autores são explícitos sobre as limitações do trabalho: trata-se de um estudo observacional de braço único e sem grupo controle.
Ou seja, não se pode estabelecer relação de causa e efeito, assim como não se é permitido distinguir o efeito farmacológico real de fatores como regressão à média e efeito placebo.
Ainda assim, o estudo preenche uma lacuna real: nenhum trabalho anterior havia reportado desfechos de dez anos com Cannabis medicinal especificamente em pacientes com dor lombar crônica.
Dessa forma, a estabilidade dos resultados ao longo de uma década e a consistência entre as diferentes análises de sensibilidade adicionam peso às observações, mesmo dentro das limitações metodológicas inerentes ao desenho.
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