Revisão reuniu estudos experimentais sobre regeneração, inflamação e mineralização em odontologia

Artigo publicado no The Scientific World Journal analisou como o canabidiol (CBD) pode influenciar células-tronco da polpa dentária humana, estruturas consideradas importantes para processos de reparo e regeneração em odontologia.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Pernambuco, da Universidade de Pernambuco, e teve como foco analisar exclusivamente estudos experimentais sobre a ação do CBD nessas células.

Os autores partiram de uma pergunta central: qual é a influência do canabidiol sobre a atividade de células-tronco da polpa dentária?

A partir dela, a revisão buscou reunir o que já havia sido publicado sobre diferenciação osteogênica e odontogênica dessas células, ou seja, sua capacidade de participar da formação de tecidos mineralizados e estruturas relacionadas ao reparo dentário.

Como o estudo foi feito

A revisão seguiu o modelo metodológico de Arksey e O’Malley, com apoio do manual do JBI e das diretrizes PRISMA-ScR, usadas para revisões de escopo.

O protocolo também foi registrado previamente na plataforma Open Science Framework (OSF), o que, segundo o artigo, ajudou a padronizar o processo de busca e seleção dos trabalhos.

As buscas foram realizadas entre janeiro e junho de 2025 em sete bases de dados: PubMed, EMBASE, BVS, Scopus, Web of Science, ScienceDirect e SciELO.

Para localizar os artigos, os autores combinaram descritores relacionados a endodontia, medicina regenerativa, canabinoides, Cannabis, canabidiol e células da polpa dentária humana, com recorte temporal dos últimos cinco anos e inclusão apenas de estudos publicados em inglês.

A seleção foi feita por dois grupos independentes de revisores, com supervisão de uma autora responsável por resolver divergências e garantir consistência metodológica.

O artigo informa ainda que a concordância entre os revisores variou de substancial a quase perfeita nas diferentes bases, com valores de kappa entre 0,75 e 0,83.

Quantos estudos entraram na análise

Ao todo, a busca identificou 30 artigos. Depois da retirada de duplicatas e da exclusão de estudos sem relação direta com a pergunta da revisão, 13 textos completos foram lidos e apenas três estudos preencheram os critérios de elegibilidade para a síntese final.

Esses três estudos incluídos foram avaliados quanto à qualidade metodológica com uma lista de 12 critérios adaptada de instrumentos como QUADAS, ToxRTool e OHAT.

Dois deles receberam 11,5 de 12 pontos, sendo classificados pelos autores como de alta qualidade metodológica, enquanto o terceiro alcançou 9,5 de 12, indicando rigor moderado a alto.

O que os estudos investigaram

Na síntese da revisão, um dos estudos buscou entender o efeito do CBD na regeneração pulpar mediada por células-tronco em condições normais e inflamatórias; outro avaliou se o composto poderia aumentar o potencial osteogênico de microssferoides derivados dessas células; e o terceiro explorou o potencial osteo/odontogênico do CBD com foco em fatores angiogênicos.

Em conjunto, os trabalhos observaram desfechos ligados à viabilidade celular, migração, diferenciação, biomineralização, angiogênese e expressão de marcadores moleculares.

Os estudos utilizaram células obtidas principalmente de pré-molares e, em um dos casos, também de dentes do siso extraídos para fins ortodônticos.

Principais resultados encontrados

Segundo a revisão, baixas concentrações de CBD — de forma geral entre 0,1 e 5 μM — estiveram associadas a melhora na viabilidade, proliferação, migração e diferenciação de células-tronco da polpa dentária humana.

O artigo também afirma que o CBD aumentou a expressão de marcadores relacionados à diferenciação odontogênica e osteogênica, como DSPP, RUNX2 e osteocalcina.

Na discussão dos autores, os três estudos convergiram ao mostrar que concentrações mais baixas tenderam a favorecer respostas celulares positivas, enquanto concentrações mais altas estiveram associadas a citotoxicidade ou sinais de estresse celular.

A revisão destaca que houve divergência entre os estudos sobre qual seria a concentração ideal, mas aponta um padrão bifásico dependente da dose.

Em testes de migração celular, descritos como relevantes para o reparo da dentina, o CBD também mostrou efeito positivo em faixas de aproximadamente 1 a 2,5 μM.

Já em relação à mineralização, os estudos relataram formação de matriz extracelular, indução de biomineralização e aumento de área mineralizada, além de maior expressão de genes e proteínas ligados à osteogênese e odontogênese.

Inflamação e angiogênese entre os achados

Um dos estudos incluídos indicou que o CBD foi capaz de reduzir efeitos induzidos por TNF-α, como queda de viabilidade, migração e diferenciação osteogênica/odontogênica.

Esse mesmo trabalho também relatou atenuação de citocinas pró-inflamatórias, segundo a revisão. Outro ponto destacado foi a possível relação do CBD com angiogênese, processo importante para vascularização tecidual.

Um dos artigos incluídos observou aumento na expressão de VEGF e ICAM-1 em células tratadas com CBD, marcadores que os autores da revisão associam à neovascularização e à adesão celular durante o recrutamento de células endoteliais.

A revisão também mapeou vias de sinalização possivelmente envolvidas nos efeitos observados. Entre elas estão a via MAPK e a via WNT/β-catenina, ambas citadas pelos autores como ativadas em associação ao tratamento com CBD.

Já em outro estudo, o papel dos receptores canabinoides, em especial o CB2, foi relacionado à modulação da regeneração dentinária induzida por CBD por meio da via MAPK.

A revisão cita ainda que mais pesquisas são necessárias para esclarecer melhor a participação de outros alvos.

O que os autores concluem

Na conclusão, os pesquisadores afirmam que o CBD surge como um composto bioativo promissor para a endodontia regenerativa, por apoiar mineralização, modular inflamação e estimular eventos celulares considerados importantes nas células-tronco da polpa dentária humana.

Ao mesmo tempo, eles ressaltam que a evidência disponível ainda é limitada. A principal limitação apontada pela própria revisão é o número reduzido de estudos elegíveis: apenas três trabalhos foram incluídos.

Além disso, os autores observam falta de padronização em pontos como origem, pureza e preparação do CBD, o que pode influenciar os resultados e dificultar a definição de um limiar seguro de concentração.

Por isso, o artigo defende que novos estudos pré-clínicos e clínicos ainda são necessários para definir concentrações seguras, sistemas de entrega e aplicabilidade clínica em longo prazo.

Em outras palavras, a revisão aponta um campo promissor de investigação, mas ainda distante de permitir conclusões clínicas definitivas.

Published On: Março 13th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /