Pesquisa conduzida na Itália aponta redução de crises convulsivas e possíveis ganhos em sono, alerta e motricidade
Uma pesquisa publicada na revista Epilepsia Open investigou o uso de canabidiol (CBD) em pacientes com deficiência de CDKL5 (CDD), uma condição genética rara associada a epilepsia de difícil controle.
Conduzido pela Unidade de Neurologia Pediátrica da Fondazione Policlinico Universitario A. Gemelli IRCCS, em Roma, na Itália, o estudo acompanhou pacientes ao longo de até 12 meses para avaliar tanto o impacto nas crises quanto possíveis efeitos em outros sintomas, como sono e motricidade.
O que é a condição CDKL5
A deficiência de CDKL5 (CDD) é uma doença genética rara que afeta o desenvolvimento do cérebro desde muito cedo, geralmente nos primeiros meses de vida.
Ela acontece por uma alteração no gene CDKL5, que tem um papel importante no funcionamento das células nervosas — especialmente em processos como o amadurecimento do cérebro e a comunicação entre os neurônios.
Na prática, isso significa que o cérebro tem dificuldade para se desenvolver e funcionar da forma esperada. Por isso, a condição costuma estar ligada a crises epilépticas frequentes, muitas vezes difíceis de controlar com remédios, além de outros desafios de saúde e desenvolvimento.
Segundo o artigo, a CDD pode causar também:
- alterações visuais de origem cerebral (quando a dificuldade não está apenas nos olhos, mas em como o cérebro processa a visão),
- comprometimentos motores (como dificuldades de movimento e coordenação),
- problemas gastrointestinais (por exemplo, constipação),
- alterações do sono.
Os autores também destacam que a condição afeta principalmente mulheres e que os sintomas costumam aparecer muito cedo, o que torna o diagnóstico e o acompanhamento especializado especialmente importantes.
Como a pesquisa foi feita (método)
O estudo foi feito como um ensaio prospectivo, aberto e de centro único, ou seja, os pesquisadores acompanharam os pacientes ao longo do tempo com um protocolo previamente definido, todos sabiam que o tratamento usado era canabidiol (sem placebo) e tudo aconteceu em um único serviço especializado.
A pesquisa ocorreu entre junho de 2022 e dezembro de 2024, com o último paciente incluído em dezembro de 2023. Para participar, era preciso ter diagnóstico confirmado de CDD por variante patogênica (ou provavelmente patogênica) no gene CDKL5 e idade entre 1 e 30 anos.
Ademais, era necessário um número mínimo de crises convulsivas que permitisse medir a resposta ao tratamento (pelo menos quatro crises contáveis por mês), além de um período de 12 semanas de linha de base para registrar a frequência das crises antes de começar o CBD.
O canabidiol utilizado foi o altamente purificado (Epidyolex® 100 mg/mL), iniciado em 5 mg/kg/dia, com aumento gradual semanal até a dose máxima de manutenção de 20 mg/kg/dia.
Ao longo do seguimento, com visitas em 1, 3, 6 e 12 meses, as famílias preencheram diários de crises, relataram eventos adversos e informaram possíveis mudanças em aspectos como coordenação motora, sono e constipação.
Quem participou do estudo
Foram incluídas nove participantes, todas do sexo feminino, com um histórico clínico já bastante complexo.
Antes de entrarem no estudo, elas já haviam tentado diversos tratamentos sem resposta adequada: em mediana, 5,5 medicamentos antiepilépticos já tinham falhado, e, no momento da inclusão, cada paciente usava 3 medicamentos concomitantes (também em mediana).
Esses dados ajudam a mostrar que se tratava de um grupo com epilepsia de difícil controle.
No perfil das crises, os espasmos apareciam como a manifestação mais frequente na linha de base (7 de 9 pacientes). Já entre as crises motoras consideradas “contáveis” para o acompanhamento do estudo, as mais comuns foram as crises tônicas (6 de 9).
Em relação à frequência, as crises ocorriam de forma semanal em cinco pacientes e diária em quatro, indicando um quadro de alta carga de sintomas.
Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, o grupo apresentava comprometimento importante: quase todas as pacientes eram não verbais (com exceção de uma, que tinha palavras isoladas) e a maioria não deambulava.
Além disso, todas apresentavam, em diferentes graus, comprometimento visual central, dificuldades de coordenação manual, alterações comportamentais e estereotipias.
Principais resultados
Segundo os autores, 8 das 9 pacientes concluíram o estudo, o que corresponde a uma taxa de retenção de 89% em 12 meses. Apenas uma participante interrompeu o acompanhamento aos 6 meses, em razão de um rash cutâneo.
Em relação às crises, o resumo mostra que uma redução superior a 50% foi observada em 8/9 pacientes aos 3 meses, em 6/9 aos 6 meses e em 1/8 aos 12 meses, sugerindo que o efeito foi mais expressivo nos primeiros meses de tratamento.
Na seção de resultados, os autores detalham que o pico de eficácia ocorreu por volta do 4º mês, quando 8/9 pacientes apresentaram redução de mais de 50% das crises, e 3/9 alcançaram redução de mais de 75%. A mediana de duração desse nível de resposta (>50%) foi de 4 meses.
Além disso, em cinco pacientes foi possível retirar outro medicamento antiepiléptico, e em uma houve redução da dose de terapia concomitante.
Para além das crises
Um dos pontos mais relevantes do estudo foi o acompanhamento de desfechos não convulsivos. As famílias relataram melhora global em escalas de impressão clínica (CGI), com um pico aos 3 meses: todos os cuidadores relataram ao menos melhora mínima, e três relataram melhora marcante.
Os benefícios mais relatados foram maior alerta e melhor contato visual, observados em 7 pacientes no 1º e 3º mês, 6 no 6º mês e 4 no 12º mês. Também houve melhora clara de coordenação motora em três pacientes (confirmada pelos médicos), e duas famílias relataram melhora importante de constipação e sono.
Os autores observam que essas mudanças tiveram apenas correlação parcial com a frequência de crises, já que alguns pacientes mantiveram melhora funcional mesmo após a diminuição do benefício no controle de crises.
Segurança e efeitos adversos
Cinco pacientes apresentaram eventos adversos durante o estudo, mas nenhum foi considerado grave.
O artigo descreve sonolência leve em três pacientes (o que levou a titulação mais lenta), um caso de rash cutâneo leve após 6 meses (com decisão de retirada do estudo por segurança) e uma elevação leve de ALT (1,6x o limite superior), que se resolveu após suspensão do valproato.
Resultados preliminares
Por fim, o estudo indica que o canabidiol pode representar uma alternativa terapêutica relativamente segura para pacientes com deficiência de CDKL5 (CDD), com sinais de benefício não apenas na redução de crises, mas também em aspectos como alerta/consciência, sono e função motora.
Ainda assim, os próprios autores enfatizam que esses achados devem ser interpretados com cautela: trata-se de resultados preliminares, obtidos em um estudo piloto, e que precisam ser confirmados em ensaios clínicos randomizados e controlados.






