Entenda como ele se diferencia do isolado e do full spectrum, quando é mais indicado e por que tem ganhado espaço no esporte
Na crescente oferta de produtos à base de Cannabis medicinal, uma categoria vem ganhando destaque entre pacientes que não podem — ou preferem não — utilizar THC (tetrahidrocanabinol): os óleos broad spectrum.
O óleo broad spectrum ocupa um espaço intermediário entre os isolados e os full spectrum. Na prática, reúne uma variedade de compostos presentes na planta — com amplo potencial terapêutico — sem incluir o canabinoide psicoativo THC.
Para entender o que muda na prescrição e por que essa formulação aparece cada vez mais no universo esportivo, entrevistamos o ortopedista e médico do esporte Dr. Jimmy Fardin (CRM 31800 – BA), que detalhou as diferenças e os cuidados essenciais, especialmente quando há risco de exames antidoping.

Dr. Jimmy Fardin (CRM 31800 – BA)
O que é o broad spectrum?
O ponto de partida, segundo o médico, é compreender a complexidade da própria planta. “A planta da Cannabis produz diversos canabinoides que podem ser utilizados na medicina com ampla variedade em diferentes patologias. Cada um deles vai se ligar a um receptor específico do sistema endocanabinoide”, explica.
Quando se fala em óleos full spectrum, a extração tende a manter o conjunto fitoquímico da planta: “Quando fazemos a extração desse óleo, nós incluímos todas as moléculas que a planta possui, incluindo terpenos, flavonoides, alcaloides e os canabinoides”, afirma.
Na avaliação do especialista, esse “pacote completo” amplia a ação clínica: “Isso cria um potencial de ação muito efetivo, pois os efeitos de cada substância serão combinados, evocando uma ação muito mais potente e ampla no ser humano”.
O desafio é que, no full spectrum, entra também o THC. “O full spectrum inclui o THC, que tem propriedades psicodislépticas, podendo gerar efeitos mais proeminentes no sistema nervoso central, como distorções visuais, temporais e relaxamento/sedação excessiva”, diz o médico.
Por isso, o THC pode ser um impeditivo — seja por sensibilidade individual, seja por risco clínico. Dr. Jimmy aponta que esses efeitos “não são interessantes para algumas pessoas sensíveis ao THC, ou patologias em que a molécula apresenta um risco maior, como psicose, esquizofrenia e transtorno bipolar”.
Ele ressalta que não significa proibição absoluta, mas necessidade de manejo especializado: “não que não possa ser utilizado, mas requer uma experiência maior do prescritor e um acompanhamento mais próximo”.
É nesse cenário que surgem duas alternativas sem THC: isolados e broad spectrum. O isolado, como o nome indica, traz apenas um canabinoide — geralmente o canabidiol (CBD). Fardin destaca o uso em epilepsia refratária e também no esporte, por causa das regras antidoping.
Já o broad spectrum tenta resolver a principal limitação do isolado: a ausência do restante do “ecossistema” da planta. Assim, o broad surge como uma opção de espectro amplo, combinando diferentes compostos — mas sem THC.
Na prática, a diferença está no alcance do efeito. Fardin explica: “a dose utilizada vai ser bem menor, ajudando no custo-benefício, e a efetividade muito maior que o isolado, sem os efeitos colaterais do THC”.
Quando o broad spectrum costuma ser a escolha mais segura?
O principal critério é claro: quando o paciente não pode receber THC. Jimmy cita exemplos objetivos: “crianças abaixo de 2 anos em geral, pacientes com ansiedade e esquizofrenia, ou alguns casos de autismo que não se deram bem com full spectrum”.
O médico também menciona o uso em condições neurodegenerativas e dor: “pode ser usado para dor, Alzheimer e Parkinson, sempre que o THC apresentar algum efeito adverso”.
Entre as vantagens clínicas relatadas, ele aponta melhora em sintomas gastrointestinais: “Para alterações intestinais, o broad funciona muito bem, uma vez que o THC tende a diminuir a peristalse”.
Além disso, o médico aponta potencial em quadros inflamatórios e autoimunes, justamente por reunir outros canabinoides além do CBD: “o broad, por apresentar outros canabinoides da planta, fornece uma modulação anti-inflamatória e do sistema imune superior”.
Vidas reais transformadas
Podemos ver os benefícios do uso do broad spectrum com clareza no relato de Angelita, mãe de Samuel, hoje com 8 anos.
Samuel foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos 6 anos, o que ocasionou, segundo descrito por Angelita, um cotidiano marcado por sofrimento para a criança, além de exaustão para a família. “Antes do uso do canabidiol, ele era muito nervoso, choroso, agressivo… era muito cansativo, tanto para mim quanto pra ele, não falava praticamente nada”, conta a mãe.
Segundo ela, os maiores desafios eram controlar “a irritabilidade, crises de choro, nervosismo e a agressividade”. Embora já tivesse ouvido falar sobre Cannabis medicinal e pedido à neuropediatra para testar, Angelita conta que a médica preferia tentar outras medicações.
A mudança começou quando uma amiga — cujo filho já fazia uso — ofereceu um frasco de óleo broad spectrum. “Comecei com 1 gota para o organismo se acostumar e fui aumentando gradualmente até 5 gotas. Com apenas 5 gotinhas meu filho mudou muito: acabou a crise de choro, o nervosismo e a irritabilidade”, relata.
Para manter o tratamento com acompanhamento, ela voltou à neuropediatra em busca da prescrição. A primeira troca, porém, não deu certo. “Ela passou um óleo de outra marca… testei e foi um pesadelo: meu filho regrediu, não dormia, desencadeou mais crises convulsivas — que já estavam controladas. Foi um caos”, afirma.
Depois de enviar vídeos do quadro à médica e insistir no histórico de resposta positiva, a família chegou ao produto que utiliza atualmente: “finalmente, ela passou o óleo da Revivid, que ele faz uso hoje em dia, com uma dosagem de 2 ml”.
Os efeitos, para ela, foram amplos e mensuráveis no dia a dia. “Meu filho é totalmente outra criança: ele brinca, desenvolveu muito a fala, é mais focado e tranquilo, e gosta de ir para as terapias.”
Angelita também destaca um dado clínico que, para a família, consolidou a sensação de estabilidade: “no último eletroencefalograma, não havia nenhuma crise convulsiva (ao contrário dos outros que ele já havia feito, que sempre constavam alterações).”
Broad spectrum e atletas: por que o interesse cresce?
No esporte, a presença ou ausência de THC muda o jogo — não só pelos efeitos no sistema nervoso, mas por questões regulatórias. Para o Dr. Jimmy, o broad spectrum tem lugar especialmente no alto rendimento. Ainda assim, ele é direto ao explicar que a estratégia muda conforme o calendário competitivo. “Em épocas de competição, somente o CBD isolado poderá ser utilizado”, afirma.
O motivo está no que os exames de antidoping identificam. “Como os testes detectam os derivados do metabolismo do THC, o uso do broad facilita a retirada e mudança para o isolado de maneira mais segura”, explica o médico.
Ele lembra que existe um limite aceito — “há uma tolerância de 180ng/dl permitida nos exames antidoping” —, mas ressalta que isso não elimina a necessidade de planejamento: “o médico prescritor e o atleta devem estar cientes da necessidade de suspensão no mínimo 1 mês antes das provas”.
Por fim, ele reitera: “É importante saber a origem do produto a ser prescrito! Com certificado de análise, boas certificações e cuidados com o solo e com a extração para não haver contaminantes”.
E para atletas amadores, a regra muda?
Depende do contexto. Na rotina, amadores podem ter mais liberdade — mas o antidoping volta a ser fator decisivo se houver competição com testagem.
“Os atletas amadores podem utilizar produtos com THC ou broad, mas, se forem competir em provas submetidas a exames antidoping, deverão cumprir as regras assim como os profissionais”, diz o médico.
Quando a Cannabis medicinal entra como possibilidade no esporte?
Segundo Fardin, as indicações abrangem performance e recuperação, mas também rotina e bem-estar. Ele lista:
- Recuperação muscular;
- Sono;
- Ansiedade;
- Jet lag, uma vez que muitos atletas sofrem com a diferença de fuso horário entre países;
- Saúde intestinal;
- Processos inflamatórios;
- Tendinites;
- Dores em geral;
- Apetite.
Ele encerra com um recado direto sobre responsabilidade — especialmente no esporte, onde qualquer detalhe pode ter impacto clínico e regulatório: “Por tudo isso, é importante ter um profissional que saiba sobre medicina esportiva e medicina canabinoide, já que fazer o uso sem as devidas orientações pode prejudicar a carreira do atleta ou do esportista.”
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