Resultados incluem melhora de sintomas físicos, emocionais e funcionais em estudo com 29 pacientes

Uma nova pesquisa publicada na revista científica Frontiers in Pharmacology traz evidências robustas sobre os efeitos terapêuticos de extratos full-spectrum de Cannabis em mulheres com síndromes de dor crônica.

Conduzido por uma equipe independente de pesquisadores no Brasil, o estudo analisou 29 pacientes tratadas com formulações que combinam canabinoides como CBD e THC — e apontou melhoras não apenas na dor, mas em sintomas como sono, ansiedade, humor, cognição e funcionalidade.

A investigação partiu de um protocolo clínico desenvolvido e conduzido pela dra. Patricia Montagner, neurocirurgiã especializada no uso medicinal da Cannabis.

Foi a partir da sua experiência no acompanhamento de mulheres com dor crônica que surgiu o convite ao neurocientista Renato Malcher para avaliar cientificamente os resultados, formando uma equipe de pesquisa autônoma para validar, de forma independente, os dados e os efeitos relatados pelas pacientes.

O foco exclusivo em mulheres não foi por acaso. Segundo Renato, a decisão de restringir a análise ao público feminino surgiu da própria realidade clínica observada:

“A maioria dos prontuários que recebemos era de mulheres. Além de serem mais afetadas pela dor crônica, elas também se mostraram mais engajadas em responder às avaliações. Isso nos levou a fazer o que deveria ser rotina: analisar os efeitos de substâncias com recorte de gênero”.

O peso invisível da dor feminina

A dor crônica afeta desproporcionalmente as mulheres, mas suas particularidades são frequentemente negligenciadas na prática clínica e na ciência.

“O corpo, os hormônios, a percepção da dor e o próprio contexto sociocultural da mulher — que segue cuidando da casa e dos outros mesmo doente — exigem abordagens específicas.”, explica Malcher.

Os resultados reforçam essa urgência. Após o uso dos extratos, 94,8% das participantes relataram melhora na intensidade da dor, sendo que quase metade (47,4%) avaliou essa melhora como “muito relevante”.

Ainda mais expressivo foi o impacto em sintomas como irritabilidade (79,5% relataram melhora), distúrbios do sono(74,4%) e ansiedade (71,8%).

Um sistema vivo, um tratamento único

Para os pesquisadores, o sucesso do protocolo está intimamente ligado à personalização do tratamento, algo que desafia a lógica de padronização da indústria farmacêutica.

“O sistema endocanabinoide é único em cada pessoa, moldado por sua saúde, história, hormônios, genética. Então não adianta tratar com uma lógica de massa. O ideal é ajustar a dose conforme a resposta individual”, afirma o cientista.

Esse foco individualizado permitiu que o estudo revelasse algo surpreendente: não houve correlação entre o tipo de dor — fibromialgia, neuropática ou musculoesquelética — e a formulação utilizada.

Em vez disso, o que importou foi como cada paciente respondia ao extrato. “A dor é só o ponto de partida. O impacto vai muito além, atinge o estado psicológico, a inflamação e as relações sociais da pessoa”, completa Malcher.

THC: de vilão a peça-chave no alívio da dor

O estudo também lança luz sobre um ponto polêmico: o uso do THC em doses terapêuticas.

Enquanto muitos produtos industrializados seguem a lógica da epilepsia (com altíssimo teor de CBD e quase nenhum THC), os extratos usados na pesquisa provinham de associações de pacientes com formulações mais equilibradas, muitas vezes em proporções 1:1 entre os canabinoides.

“A dor precisa de todo o poder da Cannabis — o CBD é anti-inflamatório, o THC atua na subjetividade da dor, no cérebro. Juntos, eles são mais potentes. As formulações com limite de THC impostas hoje não são suficientes para tratar dor crônica”, alerta o neurocientista.

Censura científica e retrocessos regulatórios

Apesar dos resultados promissores, Malcher é enfático sobre o maior entrave para avanços reais: a regulamentação brasileira. Ele critica duramente a atuação da Anvisa, que ainda impõe restrições herdadas da lógica da “guerra às drogas”.

“A proibição de pesquisas com plantas com mais de 0,3% de THC é uma forma de censura institucionalizada. Congela o estado da ciência e nega evidências. O Brasil poderia ser uma potência nessa área, mas é impedido por premissas discriminatórias e políticas.”, defende.

Para o pesquisador, a mudança mais urgente seria a liberação do plantio nacional com alto teor de THC para fins medicinais, o que permitiria estudos de ponta, acesso a tratamentos eficazes e desenvolvimento da indústria local.

Um passo à frente

Enquanto o debate regulatório avança a passos lentos, estudos como este ajudam a construir um novo paradigma na medicina canabinoide: baseado em ciência, empatia e reconhecimento das particularidades de quem mais sofre — e resiste.

“O ideal é viver o máximo possível no modo paz. É esse modo que o sistema endocanabinoide sustenta. Quando tudo está bem, ele vai ao máximo funcionamento, gerando conforto, afeto, saúde. A Cannabis ajuda justamente a restaurar isso, quando o estresse e a dor colocam o corpo em guerra.” — declara Renato.

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O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).

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Published On: Janeiro 13th, 2026 / Categories: Notícias / Tags: /