Pesquisa inédita avalia óleo full spectrum em adultos com TEA e aponta melhoras em sono, humor e socialização
Um estudo inédito conduzido na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçu (PR), revelou que a Cannabis medicinal pode trazer benefícios significativos para adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A pesquisa é coordenada pela professora e pesquisadora Dra. Micheline Donato, doutora em Fisiologia pela UFMG e mestre em Farmacologia pela UFPB. Com uma sólida trajetória acadêmica, possui quatro pós-doutorados realizados no Brasil e no exterior, incluindo um em Drug Discovery com canabinoides sintéticos na University of Nottingham, no Reino Unido, onde iniciou suas investigações na área em 2017.

Pesquisadora Dra. Micheline Donato apresentando o projeto AUTCANN em Simpósio nos Estados Unidos.
O projeto avaliou 14 participantes com diagnósticos tardios na vida adulta e demonstrou dados promissores sobre os sintomas centrais (socialização e comportamento) e secundários, como a melhora no sono, regulação do humor e ansiedade com 150 dias de estudo.
O sistema endocanabinoide e o TEA
De acordo com a pesquisadora, compreender a relação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o sistema endocanabinoide (SEC) é fundamental para entender o potencial terapêutico da Cannabis medicinal nessa condição.
O TEA é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento com forte influência genética — responsável por mais de 80% dos casos — mas também sofre impacto da epigenética, ou seja, das interações entre ambiente e genes.
O SEC, maior sistema modulador do corpo humano, participa de processos cruciais desde as fases iniciais de formação do indivíduo, incluindo neurodesenvolvimento, regulação emocional e plasticidade neural. Pesquisas apontam que pessoas com TEA apresentam alterações importantes nesse sistema, como:
- Redução da expressão do receptor CB1, especialmente ligados às funções comportamentais e sociais;
- Níveis diminuídos do endocanabinoide anandamida, neuromodulador que confere efeitos relacionados ao humor e regulação de diversas funções corporais;
- Aumento da expressão do receptor CB2 em determinados tipos celulares ligados ao sistema imune, associados a processos de neuroinflamação.
Essas alterações indicam um desequilíbrio neurofisiológico que impacta desde o desenvolvimento cerebral até a regulação de emoções e comportamentos.
Nesse contexto, a Cannabis medicinal, especialmente em formulações com extrato integral da planta (full spectrum), surge como ferramenta capaz de reajustar o sistema endocanabinoide, contribuindo para restaurar funções cognitivas.
“Quando conseguimos modular o SEC, abrimos caminho para ganhos expressivos em sono, humor, ansiedade e comunicação. Nas crianças, esse impacto é ainda mais potente por conta da maior plasticidade neural, mas em adultos o tratamento também representa uma alternativa inovadora e promissora, uma vez que pode agir também em comorbidades como depressão, ansiedade e insônia”, explica Micheline.
O desafio da invisibilidade dos adultos autistas
Grande parte dos estudos científicos já publicados foca em crianças com TEA, já que o transtorno é classificado como uma condição do neurodesenvolvimento. No entanto, essa ênfase acaba negligenciando e invisibilizando adultos, em especial aqueles classificados como suporte 1 — pessoas consideradas mais funcionais, mas que ainda enfrentam dificuldades sociais e adaptativas significativas, muitas vezes mascaradas por sua aparente autonomia.
“Esses indivíduos muitas vezes passam a vida recebendo diagnósticos equivocados de depressão, ansiedade ou bipolaridade, sem melhora significativa com os tratamentos convencionais, e sem indicação ao TEA”, explica a pesquisadora. “A invisibilidade do diagnóstico desses pacientes traz sofrimento e comorbidades que poderiam ser evitadas com diagnóstico precoce e acesso às terapias adequadas”, continua.
O tema também tem uma dimensão pessoal para Micheline. Sua filha recebeu o diagnóstico de TEA apenas aos 21 anos, após anos de equívocos médicos. Antes mesmo da confirmação, ela já havia iniciado o tratamento com Cannabis, depois que as medicações convencionais se mostraram pouco eficazes no controle dos sintomas.
A melhora significativa observada nesse processo não apenas transformou a vida da filha, como também impulsionou Donato a levar o debate para o campo acadêmico, unindo experiência pessoal e investigação científica.
Óleo full spectrum como diferencial
O estudo, denominado AUTCANN, utilizou o óleo Whole CBD Revivid® em doses progressivas, de 20 a 200 mg/dia. Diferente de pesquisas anteriores, cujo foco é em crianças, utilizam dose fixa ou apenas CBD isolado, a escolha pelo full spectrum foi estratégica.
“O efeito da planta integral, com canabinoides, terpenos e flavonoides, promove um ajuste mais refinado no sistema endocanabinoide”, ressalta. “Essa sinergia pode trazer resultados mais relevantes, incluindo os adultos que estão no espectro.”
A amostra também se destacou por ser representativa em termos de gênero e diversidade: homens, mulheres e pessoas não binárias participaram do estudo, além de indivíduos de diferentes etnias, o que difere dos estudos já publicados que trazem amostras com participantes apenas brancos.
Resultados: ganhos rápidos e impacto social
Os primeiros sinais de melhora surgiram já nos primeiros 15 dias:
- Sono: 34,6% relataram dormir melhor.
- Humor: 13,5% observaram melhora.
- Ansiedade e irritabilidade: redução em 9,6% dos casos.
- Comunicação: aumento de 8,26% nas habilidades de expressão e compreensão.
Segundo Micheline, a melhora rápida no sono foi um dado surpreendente, uma vez que indivíduos adultos no TEA relatam insônia crônica. “O sono é essencial para a neuroplasticidade, consolidação da memória e regulação emocional. Quando conseguimos ajustar isso logo no início, há ganhos indiretos em memória, aprendizagem e qualidade de vida como um todo.”
Cannabis como terapia de primeira linha?
Embora os resultados ainda sejam preliminares, a pesquisadora defende que a Cannabis medicinal pode, sim, vir a ser considerada uma terapia de primeira linha para adultos com TEA.
“Hoje, esses pacientes fazem uso de diversos psicotrópicos para lidar com ansiedade, depressão e crises, mas a terapia canabinoide mostrou que causa uma melhora em todos esses aspectos, podendo sim ser uma terapia interessante como primeira escolha.”
Um olhar humanizado para a neurodiversidade
Para a pesquisadora, a experiência também transformou sua própria visão sobre ciência e saúde. “Esse estudo me trouxe uma compreensão mais sensível e humanizada da neurodivergência.”, afirma. Segundo ela, a bandeira da neurodiversidade e a aposta em terapias inovadoras como a Cannabis representam não apenas um avanço médico, mas também um ato de justiça social.
O impacto do projeto “AUTCANN” já ultrapassa fronteiras! Após ser premiado com Menção Honrosa no congresso anual da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (2024), e ser selecionado para apresentar no Simpósio da International Cannabinoid Research Society, nos Estados Unidos (2025), a iniciativa coloca a ciência brasileira sob os holofotes globais.
O reconhecimento internacional reforça a urgência de avançar em pesquisas que podem transformar vidas, destacando o protagonismo do Brasil na produção de conhecimento de ponta em saúde e neurociência.
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O uso medicinal da Cannabis já está regulamentado pela Anvisa desde 2014. Médicos, cirurgiões-dentistas e médicos veterinários – com registro profissional ativo – estão aptos a prescrever fitocanabinoides (moléculas medicinais da Cannabis).
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