No Dia Mundial da Conscientização do Autismo, mães compartilham como a Cannabis mudou suas vidas.
Nesta quarta-feira, 2 de abril, celebra-se o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, data dedicada a ampliar o debate sobre inclusão, respeito e o acesso a diagnósticos e tratamentos adequados para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).
No Brasil, o tema ganha cada vez mais urgência: segundo o IBGE, estima-se que 1% da população brasileira esteja dentro do espectro, o que corresponde a cerca de 2 milhões de pessoas. A prevalência global é de 1 caso para cada 44 nascimentos, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), e estudos apontam a importância do diagnóstico precoce como peça-chave para garantir mais qualidade de vida e melhores prognósticos.
Ainda no contexto nacional, um panorama mais detalhado do autismo foi traçado pelo estudo Retratos do Autismo no Brasil 2023, conduzido pela Healthtech Genial Care em parceria com a Tismoo.me, plataforma voltada ao cuidado de pessoas com TEA. A pesquisa revelou que 1 em cada 30 crianças brasileiras está no espectro — um número superior à média mundial estimada por órgãos internacionais como o CDC.
Fatores genéticos
O levantamento também destaca o papel dos fatores genéticos no desenvolvimento do transtorno, indicando que muitos indivíduos com TEA possuem histórico familiar semelhante. O que se reflete em um dado expressivo: o estudo aponta que 24,2% das pessoas autistas também são cuidadoras de outras pessoas com o diagnóstico, como irmãos ou filhos, evidenciando uma sobreposição de funções que escancara a urgência de políticas públicas mais inclusivas e estruturadas.
Pesquisas como essa reforçam a importância de ampliar o acesso à informação, ao diagnóstico precoce e a tratamentos diversos, capazes de melhorar significativamente a autonomia e o bem-estar dessas pessoas e de suas famílias.
Cannabis medicinal no tratamento do Transtorno do Espectro Autista
Entre os tratamentos que vêm ganhando espaço no Brasil — muitas vezes à margem das políticas públicas — está o uso da Cannabis medicinal. Ainda envolta em estigmas e desafios legais, a substância tem sido considerada por muitos médicos e famílias como uma ferramenta poderosa no controle de sintomas como crises de agressividade, ansiedade, insônia e dificuldades de socialização.
Nesta matéria, em homenagem ao 2 de abril, trouxemos relatos de mães que recorreram à Cannabis como parte do cuidado com seus filhos autistas. Elas compartilham suas histórias de descobertas, transformações e enfrentamentos, revelando o impacto real que esse tratamento tem proporcionado — mesmo diante de tanta desinformação e preconceito.
Mães contam como a Cannabis mudou o cotidiano de suas famílias.
Uma das vozes que se destaca na luta pelo acesso à Cannabis medicinal no Brasil é a de Paula Paz, mãe do Daniel, de 17 anos, e representante da Revivid Brasil. Foi há sete anos, em um congresso sobre autismo, que ela ouviu pela primeira vez sobre o potencial terapêutico da planta.

Paula e seu filho Daniel
Durante uma palestra sobre pesquisas envolvendo o uso da Cannabis medicinal no tratamento do TEA, ficou encantada com os resultados apresentados e decidiu mergulhar de cabeça nessa iniciativa. “A partir de então comecei a estudar artigos científicos na esperança de obter melhoras no quadro do meu filho”, conta.
Na época, Daniel enfrentava uma rotina difícil, com o uso de diversas medicações sem sucesso, além de crises convulsivas frequentes e sintomas agravados pelo autismo. “O que me motivou foi o estado de saúde em que meu filho estava. Era desesperador ver que nada funcionava”, relembra. Foi nesse cenário que a cannabis surgiu como uma alternativa — e mudou tudo.
“Foi um divisor de águas na vida do Daniel”, diz Paula. Logo no primeiro mês de tratamento, ela percebeu uma melhora significativa nas crises e nos efeitos colaterais causados pelos remédios. A evolução não parou por aí: “As melhoras motoras e cognitivas foram impressionantes. As crises convulsivas foram diminuindo até parar de vez, e conseguimos retirar todas as medicações. Hoje, ele usa apenas o óleo de cannabis.”
Desde então, Daniel tem conquistado marcos que antes pareciam inalcançáveis, como o desfralde e o desenvolvimento de habilidades cognitivas mais complexas. “Conhecemos uma criança feliz que estava lá dentro e que a gente ainda não tinha conseguido acessar”, diz Paula. “Hoje meu filho tem qualidade de vida, saúde e consegue entender tudo ao seu redor.”
A rotina da família também mudou. A interação social e a conexão afetiva se tornaram partes do dia a dia. “Os melhores ganhos para uma pessoa autista são sentir-se acolhido, amado e poder interagir. Hoje o Daniel brinca, se diverte e se comunica de forma que antes parecia impossível”, relata.
Sobre o estigma que ainda envolve o tratamento com Cannabis, Paula é direta: “É a melhor ferramenta terapêutica que já conheci. Precisamos tirar todo o preconceito sobre essa planta sagrada.” Para ela, a Cannabis medicinal representa hoje muito mais do que um tratamento — é símbolo de uma nova vida. “Foi libertação, cura e muito amor. Somos envolvidos com essa causa desde 2017, e só tenho a agradecer a essa plantinha.”
Outra mãe que encontrou na Cannabis medicinal uma ferramenta de transformação é Natália Castro de Souza, mãe da pequena Isis, de 4 anos. Desde o diagnóstico da filha, ela e o marido mergulharam em pesquisas na internet em busca de um tratamento que pudesse oferecer mais qualidade de vida para a criança.

Natália e sua filha Isis
Nessas pesquisas, encontraram a Cannabis, e o impacto foi imediato. “Desde o primeiro momento em que a minha filha tomou a cannabis, eu já senti a diferença”, conta Natália. Mas o que marcou para sempre sua memória foi um gesto simples, porém profundo: “Foi quando ela olhou para mim pela primeira vez. Foi a primeira vez que senti ela aqui, junto comigo, presente — que ela se identificou como uma pessoa.”
O tratamento, iniciado em maio de 2022, seguiu em evolução até julho de 2024, quando Isis alcançou a dosagem ideal. Desde então, a estabilidade conquistada tem sido reflexo de uma nova fase na vida da família, marcada por mais conexão, presença e desenvolvimento.
Com o desejo de informar e apoiar outras famílias que enfrentam os mesmos desafios, Natália criou um perfil no Instagram, o @nataliacastrodesouza, onde compartilha a trajetória do tratamento da filha e os avanços conquistados com o uso da Cannabis medicinal.
Os relatos de Paula e Natália revelam uma realidade ainda distante das políticas públicas brasileiras, mas cada vez mais presente na vida de famílias que convivem com o Transtorno do Espectro Autista. Em meio à desinformação e ao preconceito que ainda cercam a Cannabis medicinal, mães como elas têm buscado caminhos possíveis — e encontrado, nessa alternativa terapêutica, não apenas uma resposta clínica, mas uma chance real de mudança.
Enquanto o acesso ao tratamento ainda depende, em muitos casos, de batalhas jurídicas, altos custos ou redes de apoio independentes, os avanços vividos por essas crianças colocam em xeque os limites do debate atual. Em um país onde mais de dois milhões de pessoas estão no espectro, garantir o direito à saúde em todas as suas formas — com base em evidências, empatia e respeito — é uma urgência que não pode mais ser adiada.
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